TEXTO DO 1º EPISÓDIO
Está no ar o Podcast Nossa História, Nossa Memória- Temporada Especial. Nesta estreia, a conversa é sobre música. Vamos conhecer a Sociedade Musical 5 de Novembro- a Banda Revoltosa, do município de Nazaré da Mata, na Zona da Mata, Patrimônio Vivo e Ponto de Cultura. Nosso convidado é o músico Severino Belarmino da Silva- Maestro Sapatão.
Aumenta o som e vem com a gente conhecer essa importante instituição para a Cultura em PE.
Podcast Nossa História, Nossa Memória- Temporada Especialé apresentado pela jornalista e produtor cultural, Josi Marinhoe Coordenação Geral do jornalista, documentarista e produtor cultural Salatiel Silva.
Iniciativa conta com o incentivo da Fundação do Patrimônio Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – Fundarpe.
Mais informações:
E-mail: ouvirnossahistorianossamemoria@gmail.com
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Release
Jornalistas lançam série especial de podcast com foco na preservação dos Patrimônios Materiais e Imateriais do interior de Pernambuco
O projeto idealizado pelos jornalistas e produtores culturais, Josi Marinho e Salatiel Cícero, reúne uma temporada de 20 programas, inéditos, tendo a estreia marcada para este sábado, dia 23, às 14h, em todas plataformas de streaming, gratuitamente
Neste sábado, dia 23, os jornalistas e produtores culturais, Josi Marinho e Salatiel Cícero, lançam a série “Podcast Nossa História, Nossa Memória -Temporada Especial”, iniciativa exclusiva, com foco na preservação dos patrimônios materiais e imateriais da Zona da Mata Norte do Estado de Pernambuco. A produção, que tem o incentivo da Secretaria de Cultura, Fundarpe, Governo do Estado, por meio dos recursos do Funcultura, poderá ser acompanhada pelo público nas principais plataformas de áudio e vídeo, Spotify , Youtube,Instagram,Facebook, e Site , a partir das 14h, gratuitamente.
A série, construída em formato documental, tem como proposta ajudar pessoas a se conectarem com suas raízes, tradições e histórias. Serão 20 episódios, com média de 30 a 45 minutos, sobre os diferentes patrimônios que estão inseridos na região da zona canavieira, como grupos de cultura popular, artistas, instituições e iniciativas culturais. Os episódios vão abordar temáticas ligadas à música, literatura, artesanato, dança, entre outras linguagens, de forma simples e acessível. Ao todo, serão dez meses de programas, que vão de setembro de 2023 a julho de 2024, com intervalo de quinze dias, sempre aos sábados, às 14h.
“ O Podcast Nossa História, Nossa Memória -Temporada Especial nasce com um propósito fundamental à nossa sociedade: potencializar o acesso e a difusão do acervo histórico à memória dos nossos patrimônios culturais da Zona da Mata Norte, berço da tradição da cultura afro-indigena no país. É aqui, em torno das 19 cidades, que compõem o território, cercadas pela vegetação dos canaviais, que estão as histórias e personagens que contribuem para a cultura do Brasil. A Mata Norte é muito além de um lugar para festejar as tradições do carnaval e São João. É um pedaço do mundo ainda em descobrimento” diz, emocionado, o coordenador geral do projeto, Salatiel Cícero.
A tradição oral desempenha um papel significativo em diversas culturas ao redor do mundo, e na região da Mata Norte de Pernambuco não é diferente. “ Foi pensando nessa importância da memória oral, que o podcast vai contando e explicando os fatos. Sem dúvidas, cada programa será um momento de descoberta e muito aprendizado, mas, sobretudo, para entendermos mais sobre nós e a identidade cultural do nosso lugar. Ou seja, de onde viemos, onde estamos e para onde estamos caminhando”, reflete a proponente e apresentadora do projeto, Josi Marinho.
Acessibilidade – O podcast também vai contar com várias ferramentas de acessibilidade para que, o público com deficiência, também possa se apropriar da história dos nossos patrimônios. No site, por exemplo, cada programa vai contar, além do player para ouvir o áudio, haverá, ainda, a íntegra dos textos. Já nas redes sociais e site do projeto terá também a versão dos programas em áudio com janela para tradução em libras.
Rodas de diálogo – Além da áudio série, o projeto vai promover vários encontros culturais. À medida que os programas vão acontecendo, também serão realizadas dez rodas de bate-papo cultural, em diferentes lugares da Mata Norte, com a participação dos entrevistados. A iniciativa tem como público-alvo alunos de escolas públicas, professores e pesquisadores, para debaterem, juntos, sobre a importância, a partir do que for apresentado no podcast, como seguir preservando e difundindo os patrimônios culturais da Zona da Mata.
Serviço
O quê: Jornalistas lançam série especial de podcast com foco na preservação dos Patrimônios Materiais e Imateriais do interior de Pernambuco
Quando: Sábado, 23 de Setembro
Onde: Spotify I Youtube I Site I Instagram I Facebook
Horário: 14h
Salatiel Cícero
Jornalista – Assessor de Imprensa
(81) 9 9522.0061
EPISÓDIO 2 – UNIÃO CARPINENSE DE ESCRITORES E ARTISTAS – UCEA
Poesia Tatiane Nascimento
Josi Marinho – Este projeto é realizado com o incentivo do Funcultura, Fundarpe Secretaria de Cultura e Governo do Estado de Pernambuco
Josi Marinho – É com poesia que abrimos mais um episódio do Podcast Nossa História, Nossa Memória: um espaço para exaltar os patrimônios materiais e imateriais da Zona da Mata de Pernambuco.
Josi Marinho– A poesia que você acabou de ouvir, foi recitada pela professora Maria José Barros. Durante esse episódio ela vai nos fazer companhia com belíssimas interpretações.
Cris Xavier – Maria José Barros é natural de Limoeiro, no Agreste de Pernambuco. É professora aposentada de língua portuguesa, escritora e poetisa. É uma mulher branca, que usa óculos e possui cabelos pretos, curtos e lisos. Tem várias obras publicadas e é membro da UCEA.
Josi Marinho – Hoje vamos mergulhar na história da UCEA – União Carpinense de Escritores e Artistas.
Josi Marinho – Eu sou a jornalista Josi Marinho. Mulher negra, produtora cultural e realizadora desse projeto.
Cris Xavier – E eu sou Cris Xavier, mulher negra e produtora cultural. Este podcast conta com recursos de audiodescrição, importante para contar histórias para pessoas com deficiência. Então, sempre que você ouvir este som ,você também vai ouvir minha voz descrevendo algo importante do nosso episódio.
Poesia Carpina – Luiz de frança
Josi Marinho – Como deu pra notar, nós estamos em Carpina, município da Zona da Mata Norte de Pernambuco, há 55 quilômetros do Recife. Carpina é o segundo maior polo comercial da Mata Norte. O turismo é forte em épocas juninas. A economia se baseia na monocultura da cana-de-açúcar. Carpina é uma cidade rica culturalmente, cheia de artistas.
E foi nesta cidade que um grupo de artistas escritores decidiu se unir para propagar a arte,a poesia e a literatura popular. É ou não é uma boa ideia? assim nasce a união carpinense de escritores e artistas. A UCEA foi fundada em 13 de março de 2003. O grupo era destinado a discutir e propagar toda essa arte na cidade.
Quem nos acompanha nessa história é a professora Joseane Rocha. Há cinco anos ela é diretora da UCEA.
Cris Xavier – Joseane Rocha é uma mulher negra, de cabelos cacheados e curtos. Usa óculos e tem um rosto afetuoso como se estivesse sempre sorrindo. Ela se descreve como ativista contra o racismo. É feminista e pesquisadora da cultura popular da Mata Norte de Pernambuco. O currículo é bem extenso, mas destacamos o mestrado em língua portuguesa. também é produtora cultural, ex-secretária de cultura do município de Lagoa do Carro, coordenadora de projetos, sindicalista e escritora.
Josi Marinho – Assim como a gente, acredito que você aí do outro lado tá muito curioso para entender como tudo isso começou. O que faz a UCEA? Quem teve essa ideia? Ajusta os fones, o volume e vem com a gente.
Josi Marinho – Pedimos para a professora Joseane relembrar do encontro dos fundadores… Voltar no tempo e resgatar essa memória. Descobrimos que o pontapé dos artistas carpinenses nem aconteceu em Carpina…Foi numa cidade vizinha que A Grande Ideia Nasceu.
Professora Joseane Rocha – “Há 20 anos, os idealizadores foram convidados para participar de uma academia em Lagoa do Carro pela então prefeita, Judite Botafogo, o poeta Luiz de França; dona Lisar, falecida; Leonilton Carneiro; Edite Marinho. Foram os fundadores da UCEA e, até hoje, nós temos essa entidade que se agigantou no nosso município”.
Josi Marinho – Esses artistas fundadores possuem obras magníficas e você ouve trechos desses trabalhos durante todo esse episódio.
Josi Marinho – A ideia de reunir escritores, poetas e artistas em um grupo só fortaleceu a arte popular. Hoje a UCEA é a entidade cultural com maior tempo de atividade em Carpina.
Professora Joseane Rocha – “Hoje tem 20 anos de atividade ininterrupta, então é a entidade cultural carpinense de maior atividade permanente em Carpina. Então, nós temos muito orgulho, né? Em ter essa vida, essa vida útil, essa vida cultural em Carpina. Então, isso é algo que nos orgulha bastante. Então a UCEA hoje vive de permanecer ativa com os seus artistas, com seus escritores, que se encontram para recitar, para trocar ideias, para lançar os seus trabalhos, seus livros, para apresentar as suas obras. Também não temos apenas escritores, como o próprio nome já diz, nós somos uma entidade artísticas, embora predominantemente, nós somos compostos pela sua grande maioria de escritores”.
Josi Marinho- Esse grupo sempre está reunido, seja para discutir e planejar alguma programação, ou para realizar recitais, por exemplo. O evento mais aguardado é o terraço cultural.
Professora Joseane Rocha – “Onde nós nos reunimos uma vez ao mês, em um terraço, em um jardim, em uma garagem. Um espaço, que nos é cedido, que nos é compartilhado ou por um vizinho, ou por um membro da entidade, por qualquer pessoa que sinta vontade para compartilhar o seu espaço e nos receber e ali. Nós fazemos uma espécie de sarau. Onde a gente recita, onde nós cantamos, onde nós expusemos o nosso trabalho. E ali nós compartilhamos esse material, essa arte e passamos esse tempo, nesse sarau muito gostoso, e onde nós temos esse prazer de compartilhar desse elemento tão prazeroso que é a arte”.
Josi Marinho – São cerca de 25 membros, entre escritores e escultores. Mas esses artistas não têm uma sede, um local fixo para os encontros. Essa nossa conversa, por exemplo, aconteceu na casa da professora Joseane.
Cris Xavier – A casa é acolhedora, bem iluminada e preserva uma fachada antiga. Fica perto do centro de Carpina. A gente conversa numa sala com cerâmicas antigas, em tons de marrom, que parecem azulejos antigos. Na parede vários quadros, pinturas e fotografias da família da professora.
Josi Marinho – Não ter uma sede dificulta o andamento das reuniões e até dos encontros.
Professora Joseane Rocha – “Hoje nós temos lutado para conseguirmos a nossa sede. Até então já tivemos várias promessas. Inclusive, já tivemos um prefeito que fez uma doação em um grande evento. Infelizmente, nós tivemos a realização que não se efetivou. Nós recebemos uma doação em público, mas que não foi efetivada de fato de direito. E a UCEA nunca recebeu esse prêmio, esse presente, né? Já foi prometido várias vezes esse terreno e infelizmente nós ainda não tivemos a realização desse tão sonhado prêmio. Mas não, não perdemos a esperança. A gente sabe que um dia vai chegar e é a nossa meta”.
Josi Marinho – Estamos curiosos para saber como a UCEA funciona na prática. Falamos de encontros, recitais … Mas como isso acontece? Qual o resultado ou o produto desses encontros?
Professora Joseane Rocha – “A UCEA durante 20 anos fez três coletâneas. Então, as coletâneas são a composição de organização de obras de vários artistas, né? Então, aí a gente faz o fomento, a organização, capta recurso e organiza os textos para que esses poetas, que não teriam condição de publicar de forma separada, individual. E aí nós organizamos esse material para publicar de forma conjunta. Então a última publicação foi da terceira coletânea, foi em 2019 bem pertinho já do lockdown. E aí foi uma grande festa, nós juntamos, se não me engano foram 10 artistas, que apresentaram seus textos. Foi muito bom, fizemos uma grande festa”.
Cris Xavier – A professora se referiu ao lockdown, que ocorreu no começo de 2020. Essa foi uma medida de restrição extrema e necessária, que resultou no fechamento total ou parcial de áreas geográficas, comércio, escolas, indústrias… O mundo vivia a pandemia da covid-19, desencadeada pelo coronavírus, que matou milhares de pessoas.
Poesia saudade de mim – Verônica Guimarães
Josi Marinho – Professora, a gente fala de uma cidade que se destaca e cresce a cada dia na Zona da Mata de Pernambuco. Falo isso na condição de filha e moradora desta cidade. Hoje Carpina é uma promessa do setor imobiliário, tudo cresce junto com o município. Mas não podemos esquecer o lugar onde ela está inserida. Um pedaço caro da história do Brasil. Ao mesmo tempo um dos mais pobres e muitas vezes negligenciado: a zona canavieira. A gente fala de literatura e vem logo à mente os clássicos, os livros grossos… histórias …. palavras difíceis … Porém, aqui existem os escritores e poetas populares. São trabalhadores rurais que escreveram loas de maracatu, letras para o coco de roda e a ciranda.
Cris Xavier – As loas, são letras… composições musicais do maracatu, que por sua vez é uma manifestação cultural e musical tradicional do nordeste brasileiro,especialmente de Pernambuco. O maracatu e suas loas são expressões com elementos africanos e brasileiros…. Algumas características são a dança, as cores, desfiles e figurinos típicos. Já o coco de roda é um ‘ritmo, dança’… Também típico da zona canavieira. Aqui é uma combinação de música, canto e dança muitas vezes em formato de círculo ou roda. A ciranda também é coisa nossa, pode ser tocada, dançada em formato de círculo e acompanhada por palmas..
Josi Marinho – todos esses ritmos trazem letras que refletem o dia-a-dia e as reflexões de gente simples, trabalhadores, muitas dessas letras foram compostas no engenho e retratam a vida humana como ela é. Não tem como descartar a poesia e a literatura popular desses artistas.
Professora Joseane Rocha – “É você tocou numa coisa assim que me deixa bem ouriçada, porque tudo isso para mim é vida. A literatura oral é algo que me chama muita atenção. Inclusive a minha dissertação ela trata disso. Porque eu fui buscar nas loas do maracatu rural, um estímulo para tratar, para fazer o letramento literário com as turmas de eja”. –
Cris Xavier – E já significa educação para jovens e adultos. É um programa criado para jovens, adultos e idosos, que por algum motivo não conseguiram terminar os estudos básicos no tempo convencional.
Professora Joseane Rocha – “Então eu busco nessa linguagem da literatura oral, porque eu entendo que é justamente na linguagem popular, na linguagem dessa oralidade, da busca do homem do campo. Porque eu entendo que a cultura popular, ela tem uma riqueza muito grande. A língua portuguesa ela passa pela linguagem da cultura popular. Inclusive eu aproveito os fomentos e aproveito também os fomentos de cultura e os fomentos de projetos de cultura, para pesquisar isso. Inclusive, através do Funcultura nós já pesquisamos as influências da linguagem da cultura popular. As influências da linguagem africana aqui na região da Zona da Mata.”
Josi Marinho- Estamos curiosos para saber que conclusões a senhora já conseguiu ter nessas pesquisas. O que influenciou todo esse povo?
Professora Joseane Rocha – “Nós já fizemos através de coletivo de mulheres e de professores. Nós já fizemos um recorte das influências africanas, que aí a gente fez um recorte com o banto e as linguagens nagô aqui na nossa região. O banto é um recorte de uma linguagem de algumas linguagens africanas, e também o nagô. Banto e nagô são recortes de duas linguagens africanas, até porque nós temos três comunidades quilombolas aqui na nossa região. Nós temos aqui Barro Preto (Carpina), nós temos Trigueiros (Vicência) e nós temos… Esqueci o nome agora uma comunidade em Goiana – PE”.
Cris Xavier – Povoação ( São Lourenço). São três comunidades quilombolas: Barro Preto, Trigueiros e Povoação. Elas ficam nas imediações de Lagoa do Carro, Vicência e Goiana.
Professora Joseane Rocha – “Além dessas três comunidades, a gente tem uma expansão dessa linguagem, dessa influência, e aí a gente tem essa influência aqui que beira toda nossa linguagem coloquial, que vai ter influência em todas essas comunidades de cultura popular. Fora isso, a gente tem as manifestações populares de coco, maracatu, além das manifestações também religiosas. Então, tudo isso vai se reverberar na linguagem e se manifesta através da linguagem tudo isso é a língua. Tudo isso, sim, se estuda na língua portuguesa”.
Josi Marinho : Nos corrija se estivermos errado… mas às vezes parece que a literatura popular, que a música do cortador de cana, que a letra da ciranda e o ritmo do maracatu são negligenciados pelos, entre aspas, “intelectuais”. Muito do que sabemos vem do boca a boca, do empirismo, da sabedoria popular passada de geração em geração pela oralidade… com poucos registros escritos.
Professora Joseane Rocha – “Ainda é muito discriminado como você diz e visto ainda de forma periférica. Sim, a academia ainda vê muito de forma periférica e por isso eu vejo como um campo muito rico a ser pesquisado. O fato de ser visto de forma discriminada e periférica no meu entendimento é um campo de vasta pesquisa”.
Josi Marinho – Por que essa linguagem literária popular é tão desconhecida e até desvalorizada?
Professora Joseane Rocha – “Por que é pouco pesquisada? Porque o desconhecido é justamente porque é pouco publicado. Se a gente tem pouca literatura a respeito é porque existem poucos pesquisadores e pouco fomento”.
Josi Marinho – “Por isso é importante falar que na Universidade de Pernambuco, a UPE, existe um espaço para que o aluno conheça melhor a cultura popular. O curso de letras têm em sua grade curricular a disciplina de literatura popular. É o primeiro curso do Brasil a ter essa disciplina como obrigatória. São estudos voltados para oralidade literária, cultura popular, memória, identidade cultural, imaginários sociais, como mitos e utoria, e ideologias. Quem sabe podemos contar com novos professores propagando a arte do povo?”.
Josi Marinho – Com toda essa nossa conversa, me veio na mente uma espécie de linha do tempo cultural. Acompanha comigo… São tradições: o mamulengo, Patrimônio do Brasil, o maracatu rural e a ciranda… Construções literárias, mesmo que oral, do dia-a-dia. Isso mudou? Surgiu gente nova, poetas novos? como essa linguagem evoluiu?
Professora Joseane Rocha – “Não, tem evoluído. Inclusive também já pesquisamos sobre o mamulengo aqui na regional com o nosso Coletivo Flor da Mata. Inclusive publicamos o filme sobre Miró, né? Fizemos a edição e o lançamento”.
Cris Xavier – O filme é um curta-metragem em formato de documentário. Miro: um sonho que virou boneco. É a história do mamulengueiro carpinense, Ermírio José da Silva. A curta mostra a trajetória do mestre desde as primeiras tentativas de reproduzir bonecos usando cabos de vassoura, até o reconhecimento internacional. A equipe foi formada pelo Coletivo Fulô da Mata. A gravação foi feita pela equipe da batuk estúdio e o financiamento foi do Funcultura.
Professora Joseane Rocha – “Nós já tínhamos feito a pesquisa sobre o mamulengo e logo em seguida, nós fizemos o lançamento do filme. O mamulengo ter se tornado Patrimônio Imaterial foi de grande importância, né, para valorização dessa linguagem”.
Cris Xavier : Mamulengo é como se chama o teatro de bonecos. É popular aqui no nordeste brasileiro. São marionetes manipuladas por artistas que contam histórias com elementos humorísticos e sociais. Em 2015, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu o teatro de bonecos popular do nordeste, como Patrimônio Cultural do Brasil.
Professora Joseane Rocha – “Isso traz para evidência, indiscutivelmente dá uma qualidade para o brinquedo, assim como todas as outras linguagens, traz uma valorização muito grande. Mas o que eu vejo, que é necessário, é que os próprios artistas e que produtores e pessoas que circulam nesse meio precisam também dar uma qualidade e valorização para essas linguagens. Sabe? Acho que a gente precisa dialogar. Precisa haver um diálogo e um fortalecimento. Eu acho que o diálogo fortalece, que as entidades de cultura, as entidades de artistas, precisam afinar melhor esses diálogos, porque enquanto a gente está separado a gente acaba fragilizando”.
Poesia Tua Metade – Sandra Albuquerque
Josi Marinho – Professora, se a senhora nos permite, agora queremos entrar um pouquinho numa esfera mais pessoal. Entender essa sua paixão pela literatura popular e pela UCEA. Vamos um falar um pouco da sua história com a UCEA? Há seis anos a senhora ingressou nesse grupo e há cinco tornou-se diretora. O que foi que lhe atraiu nesse projeto?
Professora Joseane Rocha – “Acho que a necessidade de contribuir com esse trabalho social, com o trabalho literário, de certa forma é uma extensão do meu trabalho enquanto profissional. Enquanto professora de literatura, eu me senti também no apelo de dar a minha contribuição social, quase uma extensão do trabalho da sala de aula. Então eu recebi esse convite, aceitei e estou até hoje, mesmo fora da diretoria-executiva, mas eu continuo me sentindo, ainda na obrigação de fazer parte dessa entidade. É algo que demanda bastante trabalho, mas a gente tem também um prazer do resultado, né?.;”
Josi Marinho – É mais fácil para quem tem 30 anos de sala de aula, lidar com esse trabalho? Imagino que é um trabalho constante unir a literatura trabalhada na escola pública com o que é desenvolvido na UCEA.
Professora Joseane Rocha – “Parece que foi ontem, né? 30 anos atrás eu estava adentrando ao serviço público, assim, cheia de ideias, cheia de perspectivas, acreditando que o mundo era colorido e que seria tudo assim muito fácil, muito rápido. E a gente vai descobrindo no fazer pedagógico, que não é bem assim. Muitas das vezes nós temos ideias e na hora da execução é que a gente aprende que as ideias também não são bem assim, que são possíveis de serem executadas. E a gente aprende a fazer fazendo. O fazer pedagógico ele tem essa nuance, a gente vai amadurecendo e eu fui amando cada vez mais essa descoberta”.
Josi Marinho – Veja como é interessante e importante essa nossa discussão. Não poderíamos falar de arte, literatura, poesia… sem falar de educação … e educação de base… escola pública. Nesses 30 anos de sala de aula… Qual o entrave? … Qual o desafio? … O que falta?…
Professora Joseane Rocha – “Eu acho que as políticas partidárias elas interferem muito de forma negativa no desenvolvimento das políticas públicas, porque as políticas públicas, elas tendem a ter uma certa evolução e elas travam quando as políticas partidárias interferem. E muitas vezes, ao longo desses 30 anos, algumas políticas públicas conseguiram funcionar e elas chegaram a parar, ou a travar, quando as políticas partidárias falaram mais alto. É muito visível isso agora por exemplo na última Reforma do Ensino Médio, que está sendo uma grande catástrofe. E é muito visível e é muito séria e vista por todos os lados, por todos os olhos. Digo isso pelas famílias, pelos estudantes, pelos professores. Todos os participantes dessa história estão insatisfeitos. E por olhares diferentes. Digo porque eu escuto dos alunos, escuto dos pais, escuto e falo enquanto professora. Eu só não escuto isso dos políticos. Eu só não escuto isso de quem executou essa política, né, que ainda continua dizendo que funciona. São as únicas pessoas que continuam dizendo que funcionam, são justamente os que não estão sofrendo as consequências dessa política. infelizmente”.
Josi Marinho – Ainda estamos muito interessados em saber como essa nova geração recebe os escritores e poetas populares. São mais de 20 na UCEA, certo? esses artistas carpinenses vão até as escolas? Esses nobres escritores e poetas trocam ideias com alunos que ainda estão em contato com a base da língua portuguesa?
Professora Joseane Rocha – “Eu já tive as duas experiências tanto de levar a UCEA para sala de aula, quanto de fazer o inverso, né? Muitas vezes, já levei os poetas e os escritores para a escola. De levar a escola para UCEA, porque aí eles precisam ter esse feedback. Eu acho interessante quando os alunos descobrem que existem escritores carpinenses. Ano passado eu trabalhei com os primeiros anos e eles ficaram assim: surpresos! Muitos alunos não sabiam que existiam escritores aqui, bem pertinho deles. Surpresas de verdade, porque os alunos achavam que só existiam escritores de 100 anos atrás, escritores de outro de outros universos, de outros estados, que não imaginavam que existiam escritores aqui em Carpina. Alunos emocionados, que choravam porque davam um abraço no escritor Luiz de França, que não sabiam o que existiam. Isso é muito gratificante. Isso é ótimo”.
Josi Marinho – A gente aqui fica imaginando um pouco desses encontros… escritores com leitores ou futuros leitores… um encontro da sabedoria … que fantástico!!! Acredito que os membros da ucea também saem emocionados.
Professora Joseane Rocha – “E o inverso, dos escritores que se emocionavam porque estavam na escola e porque estavam ali tendo a experiência de terem jovens fazendo a leitura dos seus livros. Então, ambas as experiências são muito boas e, eu, enquanto professora, está ali sendo vetor dessas experiências. Então eu me realizo enquanto professora de estar fazendo esse canal e eu me realizo enquanto membro de uma entidade que estou fazendo isso funcionar. Então eu me sinto confortável e está fazendo esses dois papéis, por isso eu me mantenho membro da UCEA”.
Josi Marinho – Quando a senhora tomou gosto por tudo isso?
Professora Joseane Rocha – “A literatura entrou na minha vida por uma das pessoas que foram membro nesse início da UCEA, que foi a professora Emérita Veríssimo. Foi minha professora de literatura, quando eu estava fazendo magistério. Eu nem sabia que eu gostava de literatura, quando eu tive uma excelente professora de literatura. Inclusive, na minha dissertação de mestrado, eu dediquei à ela. Por essa experiência, foi por emerita que eu escolhi fazer a carreira”.
Poesia Monumento ao Trabalhador – Edite Marinho
Josi Marinho – Como a senhora se vê em meio a esse grupo? Quais obras já concluiu?
Professora Joseane Rocha – “Ao longo dessas três décadas… Eu não sou escritora há tanto tempo assim … Eu sou uma recém escritora… não me dê essa carga toda. Eu sou uma escritora bem recente… Eu não me vejo nem como artista, enquanto escritora. Eu me imponho nesse mundo artístico enquanto produtora cultura, porque eu me vejo incluída no universo artístico enquanto produção, enquanto parte desse movimento artístico. Enquanto escritora eu me vejo mais como pesquisadora. Eu me incluo enquanto pesquisadora. O meu primeiro livro foi ‘Barro Preto: história e herança’, enquanto pesquisadora da trajetória do povo do Barro Preto e, enquanto pesquisadora da história da comunidade”.
Cris Xavier – Barro Preto é uma comunidade quilombola que fica no município de Lagoa do Carro, aqui na Mata Norte de Pernambuco. A professora Joseane ensinou em uma escola nas proximidades da comunidade. Ela notou que ali todos os estudantes tinham história, hábitos e ancestralidade que muitos desconheciam. A interação, a queda na evasão escolar, a cumplicidade da professora com os alunos levou o povo a um resgate da própria história. Em 2013, eles receberam a certificação de Quilombo Barro Preto, pela Fundação Cultural Palmares.
Professora Joseane Rocha – “E aí essa pesquisa ela serviu como base para o registro da comunidade quilombola. A segunda publicação eu publiquei em conjunto. Foi como um capítulo, foi uma tessitura de saberes. Foi também uma pesquisa. Já no coletivo, foi uma pesquisa sobre a cultura de Lagoa do Carro, uma trajetória da cultura, e aí falando sobre a produção do maracatu, a história do tapete, a história da fé, a trajetória de Lagoa do Carro. E aí, depois, a gente teve outras pesquisas também fomentadas. Eu já citei algumas que foi a história do mamulengo aqui na região da Zona da Mata, a influência linguística do banto e do iorubá. Aqui na regional, também e algumas outras pesquisas que a gente vai escrevendo”.
Josi Marinho – E como a gente pode encontrar esse material?
Professora Joseane Rocha – “Na plataforma da Fundape, eu tenho algumas coisas publicadas e, outras, eu vou organizar para a gente disponibilizar, porque as minhas obras eu publiquei e fiz, eu não tenho disponibilizado de forma digital. E agora eu tô pensando em fazer isso, né? Que a gente agora tem que ter acesso, né? E aí a gente tem que se adequar”.
Poesia homenagem à Mulher – Elias Gonçalves
Josi Marinho – Vamos falar um pouco da participação feminina. A professora Joseane Rocha, mulher, negra, estudou em escola pública … A gente tem inúmeras referências de mulheres que deixaram grandes registros literários, muitas vezes em universos predominantes masculinos. Como fica a participação da mulher, da mulher negra, na literatura da zona canavieira?
Professora Joseane Rocha – “Nós somos minoria, né? Nós mulheres negras, somos minoria. inclusive na própria UCEA, na própria diretoria da UCEA eu sou a única negra, né? Fui a única negra durante um bom tempo, agora nós temos outra mulher negra também, mas não é fácil, não é fácil, e a gente tem tido essa dificuldade, né? Mas não é algo que tem sido só desse cenário da UCEA. É algo que a gente tem percebido, em todo uma toda amplitude de cenário, né? Tem os dois lados da moeda. É algo que a gente tem percebido, que tem discutido e que tem se ampliado. Se a gente tem essa discussão hoje, é porque é perceptível. Durante quantos anos esse cenário se estendeu e ninguém nem discutia, né?.”
Professora Joseane Rocha – “É uma herança histórica, né? A história não se muda com apenas algumas décadas. A história ela é bem lenta. Ela é bem cruel. E que a gente precisa mesmo encarar de frente, discutir tratar isso na escola, em casa, né com os nossos familiares e que tem que encarar mesmo e virar esse jogo.”
Josi Marinho – Como se posicionar diante disso? Qual o papel de quem está na frente de um grupo como a UCEA, formador de escritores e leitores?
Professora Joseane Rocha – “O desafio é imenso, né? Eu acho que o meu papel é o papel do protagonismo na vida real. Eu preciso ser protagonista na minha vida real, que não se limita ao que eu falo. Esse meu protagonismo, ele tem que existir enquanto eu sou, quem eu sou, como eu sou no meu dia a dia. Eu não posso só ter um discurso. Eu tenho que viver esse discurso. Eu tenho que ser coerente com a pessoa que eu sou, eu não posso ser um personagem. Então, a história não vai se limitar a mim também. Eu tenho que estar muito tranquila em entender que isso não vai mudar em um dia, em um ano, em 10 anos… São quantos anos de história? Isso é algo que eu não posso também entrar em crise e achar que eu vou mudar essa história em tão pouco tempo. Não quer dizer que a gente precisa ter tempo e cruzar os braços esperar o tempo sozinho. A gente precisa fazer a nossa parte, a gente precisa correr contra o tempo, mas com muita tranquilidade de entender que não é do dia para noite que a história muda”.
Josi Marinho – É um trabalho muito maior do que se imagina. Não é só escrever, refletir ou ensinar… É de certa forma ajudar e transformar espaços… contribuir com outras ideias…
Professora Joseane Rocha – “Primeiro a gente precisa trabalhar em rede, porque como falei antes, só nós não temos muito o que fazer, né? E aí eu comecei a dar as mãos em alguns coletivos. E aí eu fui buscar no trabalho social, comecei a contribuir no trabalho de mulheres, de ONGS, em ajudar em alguns projetos, né? E aí eu comecei a contribuir com o CEMUR. Fazendo o quê? Elaborando projetos para o CEMUR, né? Que era algo que eu tinha uma certa facilidade para fazer”.
Cris Xavier – CEMUR é o Centro das Mulheres Urbanas e Rurais, de Lagoa do Carro e Carpina. A sede fica em Lagoa do Carro, também na Mata Norte. É uma ONG de enfrentamento à violência doméstica, com projetos voltados ao empoderamento feminino. E aí para ajudar as mulheres em condição de vulnerabilidade, em condição de violência, né? Que é algo que a gente precisa mudar essa realidade, de mulheres que ainda infelizmente. Todos os dias, estão morrendo. Eu fico muito triste em ver que ontem nós tivemos mais um feminicídio em Carpina. E aí cada um tem que fazer a sua parte.
Cris Xavier – Esse feminicídio citado pela professora aconteceu em julho de 2023, na semana que gravamos a entrevista. Uma promotora de vendas de 33 anos, morta a tiros pelo namorado, que é cabo policial militar. O PM de 37 anos se apresentou dias depois à delegacia e foi preso.
Professora Joseane Rocha – “Com ONGS eu tenho contribuído dessa forma, né? Com a UCEA, que também é uma ONG, eu contribuo enquanto professora fazendo parte, como eu já falei, né, da entidade, enquanto membro, enquanto professora também. Do ponto de vista social, do ponto de vista enquanto produtora cultural artista. E aí eu vou alinhavando essa vida de professora produtora, né? E a gente vai seguindo”.
Poesia – Mulher – Leonilton Carneiro
Josi Marinho : A gente não pode falar sobre a mulher na UCEA e no cenário literário de carpina sem falar de uma figura importantíssima. Uma das fundadoras e protagonista. Já ouvimos a poesia dela aqui neste episódio. Estamos falando de Luiza França, conhecida como dona lisar. A primeira mulher escritora de Carpina. Ela documentou boa parte da história do município.
Professora Joseane Rocha – “Dona Lisar, nossa querida Luiza França. Nós temos a primeira mulher escritora da história de Carpina. E dona Lisar foi a escritora da primeira publicação da história da nossa cidade, que até hoje, é a referência, né? Qualquer pesquisador que vai escrever sobre Carpina tem esse livro como referência. isso é o nosso orgulho, né? É uma linha do tempo, uma narrativa de vários episódios. Eu recordo até de alguns de alguns encontros na UCEA, depois mesmo dessa publicação, ela publicou algumas narrativas e poemas sobre episódios que ela vivenciou na cidade. Então, ela tinha muitas recordações sobre Carpina. Olha dona Lisar, ela faleceu em total atividade, a UCEA já tinha mais de 15 anos, quando ela faleceu. Nós temos muita saudade da nossa querida Lisar.
Poesia dona Lisar – Maria José de Barros
Josi Marinho – Imagino como deve ser o desafio de formar novos leitores e atrair a atenção da criançada que está cada vez mais conectada a aparelhos eletrônicos. Como atrair a atenção desse público para poesia e literatura. Fiquei sabendo que esse ano a ucea realizou o primeiro evento voltado para o público infantil.
Professora Joseane Rocha – “Foi o nosso primeiro evento para crianças e a gente teve uma grande surpresa, foi um sucesso. E assim tava todo mundo muito apreensivo, porque foi a primeira experiência e foi muito bom. Inclusive nós temos escritores para o público infantil dentro da UCEA, mas nunca tínhamos feito um evento infantil”.
Josi Marinho – Não deixa de ser uma forma de garantir que novas gerações produzam e consumam poesia e literatura.
sonora
09’30’ – Como eu disse foi a primeira experiência enquanto entidade. A escritura Maria José de Barros, que é a nossa escritora infantil, ela já tinha feito essa experiência individualmente, mas nunca enquanto entidade. Também Edite Marinho, que é uma escritora que tem obras infantis. Já tinha feito essa experiência individualmente, mas enquanto UCEA, nós nunca tínhamos feito essa experiência. Então essa experiência, ela foi agora consolidada de uma forma institucional. É uma junção de várias mãos.
Josi Marinho – Falando em criança… em futuro… Esses pequenos leitores podem um dia se tornar membros da UCEA? Vocês pensam em ampliar a quantidade de membros?
Professora Joseane Rocha – “ Essa escala é livre, né? Mas a gente pensa nessa ampliação, sim. A gente tem tido essa discussão, inclusive com alguns formatos de convite. A nova diretoria já tem feito essa abordagem a algumas pessoas que já estão aí namorando essa possibilidade, né? Temos feito algumas abordagens, né? A gente sabe que não é fácil porque é um compromisso. Você ter um compromisso com uma entidade que precisa se reunir. Então de qualquer forma não é só “ah, eu porque eu gosto, eu quero participar” , mas você tem um compromisso, não é só querer participar. Muitas vezes a pessoa diz que quer, e acaba não assumindo esse compromisso, né? Não é tão simples assim”.
Josi Marinho – É um compromisso lindo, sem sombra de dúvidas. Como estimular esses novos artistas?
Professora Joseane Rocha – “É a gente tem feito essa discussão, principalmente agora com o início de uma nova diretoria, né? A gente pretende iniciar um novo formato de conquista. A nova diretoria tá chegando com novas ideias, com a nova cabeça, uma oxigenação. Porque a gente tem pessoas que são renomadas, mas que a gente entende que precisam também chegar novas ideias, novas cabeças, a gente precisa que pessoas também jovens, que tenham ideias mais próximas da juventude possam também chegar junto”.
Poesia Aparência – Leonilton Carneiro
Josi Marinho : Professora Joseane Rocha… que conversa incrível! Que registro!! A gente aprendeu tanto! Conhecemos a UCEA, mas também falamos sobre educação,sobre futuro e sobre a importância dos nossos artistas populares. só temos o que agradecer pelo compartilhamento de tanto conhecimento
Professora Joseane Rocha – “Para vocês que estão aí dando também essa contribuição não é? Porque vocês estão fazendo também essa parte de vocês, estão contribuindo com a cultura, com a cultura da zona da mata, com a cultura pernambucana. Isso é importantíssimo, porque isso vai servir como elo na corrente. Isso vai servir como contribuição. Isso é importante para fortalecer essa corrente, para fortalecer essa rede porque é isso que nós precisamos, né? O povo da cultura precisa que nós trabalhamos, em rede porque isso fortalece a cultura pernambucana é a cultura da zona da mata. obrigada”.
Encerramento
Josi Marinho – Esse foi o segundo episódio da temporada especial do podcast Nossa História, Nossa Memória. Tem muita coisa boa pra gente conhecer. Mas te convidamos para mergulhar ainda mais nos assuntos tratados aqui através das nossas redes sociais. Procura lá @podcastnossahistoria no Instagram. Já no Facebook somos Podcast Nossa História, Nossa Memória. Vamos adorar saber o que você achou do episódio. Também estamos em todas as plataformas de áudio. Começa a seguir e a curtir. Aproveita para compartilhar e comentar. E, claro: espalha esta conversa para todo mundo. Manda para os amigos, vizinhos. Também vale a pena ouvir os episódios das nossas temporadas anteriores, com entrevistas com foco na proteção, preservação, conservação e salvaguarda dos patrimônios culturais de Pernambuco. Também tem uma temporada incrível sobre a história do patrimônio ferroviário de Pernambuco. ah, não esquece de passar no nosso site nossahistorianossamemoria.com.br. Este podcast conta com trilha sonora assinada pelo músico pernambucano João Paulo Rosa. O roteiro e montagem foi do jornalista Gedson Pontes. A audiodescrição da produtora cultural Crislaine Xavier. No nosso canal do Youtube, no Facebook e no Instagram, nossos episódios estão traduzidos em Libras – Língua Brasileira de Sinais pela tradutora Ewelyn Xavier. Gravação, e finalização: Alysson Santos; videomaker: Julio Mello; designer: Murilo Silva; web designer: Saulo Ferreira. Apresentação e produção do jornalista Josi Marinho; coordenação geral e reportagem do jornalista, documentarista e produtor cultural, Salatiel Cícero. //
Até a próxima!!!!
EPISÓDIO 3 – BLOCO RURAL CARAVANA ANDALUZA
ROTEIRO
JOSI MARINHO – JOSI MARINHO
CRIS XAVIER – CRIS XAVIER
JOSI MARINHO – Este projeto é realizado com o incentivo do Funcultura, Fundarpe, Secretaria de Cultura e Governo do Estado de Pernambuco.
Valdilene Francisca de Souza – “espero que o dia que eu vá embora, vocês não acabem”. Na época quando o vovô falava para os meninos cuidarem: ‘eu quero essa responsabilidade nada.” Mas aí quando o vovô faleceu, eu disse: ‘não, eu vou insistir’. Aí saí arrastando meu pai, saí arrastando meus tios. Todo mundo vai se envolver. ‘A gente não vai deixar se acabar não’.
JOSI MARINHO – A gente gosta mesmo é de uma boa história de família. E é assim que essa começa. Foi seu Luiz Francisco de Souza, mais conhecido como Luiz Maquinista, que fundou um bloco rural sinônimo de resistência. Na década de 1990 esses blocos eram comuns. Hoje é raridade. Estamos falando do Bloco Rural Caravana Andaluza. Ajusta o fone e viaja com a gente nessa história.
JOSI MARINHO – Eu sou a jornalista Josi Marinho. Mulher negra, produtora cultural e realizadora desse projeto.
CRIS XAVIER – E eu sou Cris Xavier, mulher negra e produtora cultural. Este podcast conta com recursos de audiodescrição, importante para contar histórias para pessoas com deficiência. Então, sempre que você ouvir este som (toque de campainha) você também vai ouvir minha voz descrevendo algo importante do nosso episódio.
JOSI MARINHO – a gente te convida a pegar a estrada rumo a Tracunhaém, cidade que fica na Zona da Mata Norte de Pernambuco, há mais de 60 quilômetros do Recife. Você deve conhecer Tracunhaém como a terra do barro. É que mais da metade dos moradores vive direta ou indiretamente do barro, da produção de cerâmica, peças utilitárias e obras de arte, tudo feito com barro. Mas, as terras do município foram berço para o Bloco Rural Caravana Andaluza. ‘Rural’ porque ele nasceu no engenho. Foi em três de setembro de 1963. E aqui vai a primeira curiosidade do nosso episódio. O bloco foi testemunha da criação do próprio município. Tracunhaém foi vila, distrito de Nazaré da Mata e só em dezembro de 1963 foi elevada a categoria de município. Três meses antes, Luiz Maquinista e dois amigos, Deca Emiliano e Zé Baeta, fundavam o Andaluza.
JOSI MARINHO – Temos um endereço certo. A gente bate na porta do número 64, na Rua Presidente Castelo Branco, no centro de Tracunhaém. É a sede do Ponto de Cultura Andaluza. Quem nos recebe é Valdilene, neta de Luiz Maquinista. É ela quem vai nos contar da aventura do avô e de como a família mantém vivos o legado dele e a tradição do bloco rural, cada vez mais rara.
CRIS XAVIER – Valdilene Francisca de Souza é uma mulher de 45 anos, negra, de cabelos lisos, sorridente e expressiva. Fala sempre gesticulando com as mãos. O rosto acompanha com expressões. É didática, não à toa é professora, produtora cultural e desde os cinco anos de idade brinca na Caravana Andaluza. Foi presidente do grupo e hoje atua com tesoureira.
JOSI MARINHO – Valdinele, seja muito bem vinda. Você aqui representa um bloco que em 2023 completou 60 anos. É muita história! Queria que você voltasse no tempo com a gente, lá para 1963, e relembrasse como essa tradição familiar surgiu. Quem foram os atores desse início?
Valdilene Francisca de Souza – “Vovô ele trabalhava no engenho, trabalhava na questão da fazer mel, açúcar. Depois ele passou a trabalhar na Casa Grande do Engenho, tomando conta, administrando. Assim, participam filhos, netos, irmãos, sobrinhos. A tradição foi essa, né? Sempre foi essa de Neto, sobrinho, filho, irmão e a gente tá continuando do mesmo jeito. Tem outras pessoas participando, mas aí a maioria tem a ver com pessoas da nossa família mesmo”.
CRIS XAVIER – Um engenho é uma instalação industrial que geralmente ocupa muitas terras na zona da mata. Nesse local a cana-de-açúcar é plantada, colhida, triturada, processada, fervida até que o açúcar seja extraído. Também são produzidos melaço e álcool. O Engenho Abreus desempenhou muito bem esse papel. Ele fica na zona rural de Tracunhaém.
JOSI MARINHO – Outra curiosidade, como vocês já devem ter notado, o bloco foi criado pelo povo e não pelos donos do engenho. Na época era comum os donos da terra criarem blocos. O Andaluza fugiu a essa regra. Mas com o passar dos anos, a tradição foi ficando no passado. Muito disso está na conta do êxodo rural. As pessoas foram abandonando os engenhos e a zona rural e se mudando para a cidade. Como muitos outros, o Engenho Abreus também precisou se adaptar aos tempos modernos. A evolução das máquinas, o transporte ferroviário, as rodovias, influenciaram na rotina de trabalho do engenho.
Valdilene Francisca de Souza – “Antigamente tinham os moinhos de fazer açúcar, fazer melaço, que era onde meu avô participava da caldeira, essas coisas todas. Aí depois disso parou e ficou com criação de gados, produção de cana. Aí hoje é basicamente isso, produção de cana e criação de gado”.
JOSI MARINHO – Daí vem o nome “rural”, porque o bloco foi criado na zona rural. Canavieiros que precisavam de alguma diversão decidiram criar a brincadeira. Quer mais uma curiosidade? O bloco foi praticamente criado sob um baobá, possivelmente plantado há muuuito tempo por escravos que moravam por ali. Eles plantavam essa árvore para lembrar da terra natal.
CRIS XAVIER – O baobá é uma árvore tropical fascinante, nativa de várias regiões da África, Madagascar e Austrália. Tem uma importância cultural enorme. O tronco do baobá é beeem inchado, longo e ainda armazena água. Assim ele sobrevive em regiões áridas. Os galhos ficam lá no alto e são pequenos. A árvore tem uma casca grossa e pode ser vista de longe. As folhas parecem como a palma de uma mão. O crescimento dele é lento e pode levar até 10 anos para atingir o estágio de muda. A árvore é costumeiramente chamada de “árvore da vida”, porque pode viver por milhares de ano.
JOSI MARINHO – Mas eu aposto que vocês também estão curiosos para saber o que significa o nome “Andaluza”?
Valdilene Francisca de Souza – “É sim, ele foi fundado no engenho. Engenho Abreus. O nome surgiu de… foi uma ideia das senhoras que moravam lá no engenho. Como elas viajavam muito, aí elas viajaram para uma cidade chamada… Argélia e lá quando elas chegaram, o pessoal lá da palestra que ela estavam participando, referente à escola que elas frequentavam, falaram: ‘chegaram as andaluzas’. E esse nome, quando ela voltou, ela conversando com meu avô, aí ela disse: ‘eu já tenho um nome para o bloco’. Aí foi quando confeccionou o primeiro estandarte, foi tudo doado por ela, pelo pessoal que era dono do Engenho. Fizeram o estandarte, ajudaram a comprar as fantasias, os instrumentos”.
CRIS XAVIER – Estandarte é um tipo de bandeira frequentemente usado como símbolo de uma organização ou grupo. Eles chamam atenção pelas cores, formatos e símbolos. O estandarte do Andaluza é vermelho e amarelo. Tem uma boneca branca, vestida de amarelo quase dourado, ao meio e brilha bastante. Ele ostenta e sustenta o nome do bloco rural.
JOSI MARINHO – E de onde veio o nome “caravana”?
Valdilene Francisca de Souza – “Aí depois disso meu avô foi quem continuou. Ele começava a fazer rifa, pedir ajuda de um, ajuda de outro. Eles não visitavam assim os locais, né? Era só um município e visitar os Engenho ao redor do Engenho Abreus, e isso eles iam a pé. Ele saiu visitando cada Engenho a pé e por aí se transformava em andarilhos, o Carnaval. Saiam visitando os engenheiros e cada Engenho aqui na área tinha um bloco. Onde também saia de engenho em engenho”.
JOSI MARINHO – O Caravana Andaluza é o único bloco rural que ainda está ativo em Tracunhaém. E aí, eu te convido para um exercício de imaginação. A gente sai da sede do bloco, no centro do município, e pega a estrada rumo ao Engenho Abreus. São cinco quilômetros até chegar onde tudo começou. Vamos tentar reconstruir a formação do grupo na época de Luiz Maquinista, que segue a mesma configuração até hoje. São mais ou menos 50 pessoas envolvidas na brincadeira. O mais novo tem seis anos de idade e o mais velho 68. A maioria parentes.
Valdilene Francisca de Souza – “Por que aí é tio, é primo, é sobrinho, é cunhado. A formação é… nós temos uma na frente a burra, catita, temos os baliseiros, que são três ou quatro homens caracterizados. São duas filas, onde ficam as meninas para que elas possam fazer as evoluções. Temos o nosso estandarte, que tem o nosso bandeirista. Tem a percussão, que são os meninos do tarol, que é o terno, os músicos, os metais. E temos também a Dama de passo, que a gente aqui diz que é a menina da boneca, que no Maracatu já é diferente. E temos a nossa corte, que é um rei e uma rainha e sempre a gente coloca uns pequenos”.
CRIS XAVIER – Burra, catita, baliseiros, dama do passo… são personagens de várias manifestações culturais populares do Nordeste, como o maracatu, por exemplo. Eles seguem e muitas vezes puxam os blocos.
JOSI MARINHO – Essa formação é uma característica de todos os blocos rurais ou é uma marca do Andaluza?
Valdilene Francisca de Souza – “A nossa sempre foi dessa forma. Quando vovô começou quem brincava com a boneca era um menino. Aí depois ele foi e colocou uma menina”.
JOSI MARINHO – Isso foi por quanto tempo?
Valdilene Francisca de Souza – “Eu acho que na faixa de dois anos. Aí depois ele já colocou uma filha dele, aí depois já colocou uma sobrinha, aí depois quando eu comecei brincando, aí eu fiquei assumindo o papel da Dama de passo”.
CRIS XAVIER – A dama do paço é a responsável por segurar e carregar durante toda a apresentação a calunga, uma boneca cheia de adornos que é uma figura mística, rodeada de mistérios. A calunga contém espiritualidade, ancestralidade e abre os caminhos para o cortejo. Em algumas tradições apenas uma pessoa, a dama do paço, pode tocar na boneca.
JOSI MARINHO – A dama do paço é uma figura marcante no maracatu rural, por exemplo. Existe muito mistério ao entorno dela. Ela encanta quem assiste as apresentações, mas para quem brinca, o que ela representa?
Valdilene Francisca de Souza – “A nossa dama de passo é a nossa proteção ali… é o nosso respeito. Eu acho que é isso que ela traz pra gente ali dentro do grupo. E assim sempre vovô dizia ‘você tem que sempre entregar a boneca para uma criança calma, tranquila e que não seja muito afobada’… ele sempre falava isso, né? Aí a gente sempre procura buscar isso aí”.
JOSI MARINHO – É a magia da brincadeira que precisa ser preservada!
Valdilene Francisca de Souza – “Exatamente. Aí a gente sempre busca essa magia de procurar aquela criança que a gente vê que ela é bem centrada, que não seja agitada, para que nada de diferente aconteça ali no momento”.
JOSI MARINHO – Você assumiu o papel da dama do paço. Descreve pra gente como você se sente em cada apresentação. O que isso significa pra você?
Valdilene Francisca de Souza – “É diferenciado, porque assim, a gente tá buscando ali, a gente sei lá, é como… é uma emoção muito forte, quando você entra ali se modifica totalmente. Porque ali você tá indo buscar uma cultura. É como se a cultura tivesse entrando ali em você e você tivesse ali passando tudo aquilo através do seu dançar, do seu do seu agir, você tá transmitindo tudo”.
JOSI MARINHO – Você fala muito de crianças e da participação delas no bloco. Fico pensando aqui na importância de incluir os pequenos no meio cultural. A gente está num tempo onde os interesses são outros. A tecnologia, que não deixa de ser uma aliada, muitas vezes afasta as crianças do meio cultural. Você acha que elas são conscientes desse papel político e social de manter essa tradição viva?
Valdilene Francisca de Souza – – “Eu creio que sim, porque assim… as pessoas dizem assim: ‘porque vocês trazem muita criança?’ A gente traz as crianças porque é dali que a gente vai ter.. quando ele for crescendo mais ele vai continuar ali. A gente tá ali mostrando a ele a cultura, como é que é… Tá incentivando ele a se envolver na cultura e ele já vai crescendo ali com aquela mentalidade de que a cultura não pode se acabar. A gente tem que continuar batalhando para cada vez mais a gente ir agregando mais conhecimento e aumentando o valor que a cultura tem para o nosso estado, né?”.
JOSI MARINHO – E como é a aceitação da comunidade no geral? As pessoas valorizam? Gostam de participar?
Valdilene Francisca de Souza – “É sempre assim… aqueles que estão ali participando sempre vão trazendo mais um. Eu sempre faço assim … ‘hoje a gente está precisando, a gente vai se organizar para fazer o cadastro para o Carnaval’. Aí antes de chegar, quando chega o mês de dezembro, já tá ligando. ‘E aí como é… a gente vai brincar?’ Aí eu digo: ‘vamos marcar’. Aí quando chega ó … ‘eu já tenho uma amiga, eu já tenho uma prima, eu já tenho uma irmã’… é sempre dessa forma. Aí eu assim, eu quase não saio atrás para ir buscar, porque aqueles que já estão aqui já vem, já traz outra pessoa. Aí vamos brincar. É bom, é interessante, o trabalho das meninas com a gente… Assim, eu trato muito assim, a gente aqui é uma família. Independente se você é meu primo, é meu sobrinho, meu filho… a gente aqui é uma família. A gente passa três dias juntos. É tão assim que os pais eles chegam aqui no domingo, só vêm pegar a noite… quando eu chego aí eu ligo: ‘cheguei’. Aí eles vêm buscar e quando não vêm, aí tem os meninos para ir deixar nas casas. E no outro dia do mesmo jeito. Vem deixar aqui… é como não tivesse filho. A responsabilidade é Nossa e a gente passa os três dias e não se preocupa, porque assim, eles obedecem, eles respeitam. Não tem isso de estar com mau-criação, essas coisas todas. Porque as crianças hoje são como são né. Mas aí a gente não tem não se preocupa com eles”.
JOSI MARINHO – A gente vê o brilho nos olhos quando você fala do bloco. Dá pra perceber que você, sua família, são apaixonados por esse trabalho. E porque não dizer “por essa missão”. Manter vivo o legado do seu avô e manter a cultura ativa.
Valdilene Francisca de Souza – “Eu comecei brincando com cinco anos. Aí passei 14 anos brincando. Aí depois passei a só acompanhar com meu avô ajudando ele no que precisava e eu fiquei só acompanhando. Após ele falecer, a gente passou um ano, dois anos, mais ou menos, sem se apresentar, onde a gente começou a organizar a documentação que ficou, os atrasados de débitos, né? Aí a gente foi resolver toda essa questão e a gente decidiu se organizar. Os primos eu saí reunindo primos, tios. A gente decidiu voltar para não acabar, porque sempre meu avô falava assim: “espero que um dia que eu vá embora, vocês não acabem” e isso a gente trouxe para nossa vida, e a gente tá aqui dando continuidade. Tá sendo muito gratificante pra gente, porque depois que eu comecei tomando conta de tudo aquilo que ele sonhava em realizar quando ele tava, ele não conseguiu, mas aí a gente tá conseguindo realizar aos pouquinhos, mas a gente vai realizando”.
JOSI MARINHO – E como é lidar com essa relação família e brincadeira popular?
Valdilene Francisca de Souza – “É bom que a gente passa o carnaval todo mundo junto. É divertido, porque assim, quase a gente não se encontra. Aí pronto … Tá todo mundo junto ali, aí passa o carnaval todinho”.
JOSI MARINHO – Deve ser incrível mesmo! Uma brincadeira que surgiu lá atrás… há 60 anos, uniu amigos, colegas de trabalho e principalmente uma família. Uma tradição que ultrapassa quantas gerações? Quatro? Seu avô, seus pais, você e agora seus filhos? Certo?
Valdilene Francisca de Souza – “ Sim. Tenho dois filhos Arthur e Alan. Arthur tá com 13 anos e Alan tá com 10, São tudo do mês de dezembro. Quando Eles nasceram faltava um mês para o carnaval. Já vamos embora, porque eu não posso deixar o grupo. Na época, eu estava como presidente, eu acho. Vai ter que ir, eu não vou deixar o grupo só e tem que ir. Aí já estava entrando no meio e logo quando foram crescendo… Arthur começou brincando com o rei. Ele é o nosso rei hoje, vem brincando desde os 5 anos. E Alan, ele começou também. Brincou de caboclo, inventou de sair de caboclo, disse ‘eu vou de caboclo atrás do Andaluza, faça minha gola que eu vou com a catita e bula’… e foi embora pequenininho e no meio. E hoje ele brinca de palhaço, que nós temos o palhaço. Aí também como ele tem um problema na perna, a gente não deixa muito ele tá brincando. Mas ele cisma, porque ele disse que é ele quem vai cuidar, então ele tem que tá brincando. ‘Sou eu, quando você for embora daqui, quem vai cuidar sou eu,’ ele diz”.
JOSI MARINHO – É importante demais esse sentimento de querer dar continuidade a um trabalho tão lindo! Tomo a liberdade de dizer que os fundadores, estão orgulhosos.
Valdilene Francisca de Souza – “E fico muito feliz, porque assim… na época quando o vovô falava para os meninos cuidarem, as meninas: ‘Oxe eu quero essa responsabilidade’… meus tios e até meu pai … ‘eu quero essa responsabilidade em nada. Eu vejo o senhor aí, quando chega, termina o carnaval tá aí com dor de cabeça, fica doente preocupado. Eu quero essa responsabilidade para mim não’, mas aí quando o vovô faleceu, eu disse ‘não, eu vou insistir’. Aí saí arrastando meu pai, sai arrastando meus tios. Todo mundo vai se envolver. ‘A gente não vai deixar se acabar não’. Aí ele começou a se envolver. Ele agora diz assim para os meninos: ‘eu agora só faço gastar. Não vou estar atrás’. Aí já vai fazer dois anos que ele teve AVC. Aí ele não participa, mas ainda vem aqui dar uma ordem, Ainda vem aqui reclamar: ‘ó, está errado. Não é dessa forma não. Por que vocês estão fazendo assim?’ Ai os meninos fazem: ‘mas tu não dissesse que não ia se envolver mais’…. mas não consegue. Não consegue ficar em casa, aí vem embora”.
JOSI MARINHO – Vamos falar um pouco sobre a caracterização do grupo? A gente sempre passa uma mensagem através de roupas, cores, comportamentos. Pra quem nunca viu uma apresentação do caravana andaluza, algumas cores se sobressaem: o vermelho e o amarelo. A gente já falou aqui da formação do grupo… na frente os personagens, os baliseiros, as passistas… mas no meio algo bem imponente chama atenção. Um estandarte… e tudo é confeccionado por vocês, que eu já fiquei sabendo. Esse embelezamento visual é super importante… o colorido… o brilho…
Valdilene Francisca de Souza – “Se você sempre observar, a gente vai estar sempre no vermelho e no Amarelo. Até o nosso estandarte ele é vermelho com amarelo. A gente tentou modificar. Mas aí todo mundo achou estranho. A gente modificou estandarte um ano e todo mundo ‘não nada a ver. Cadê o vermelho? Cadê o amarelo?’ Já tem aquela coisa, até as pessoas… ‘Cadê o vermelho?’ Mas tá nas roupas. Já é uma coisa que vem desde de lá do início. Foi a cor que eles determinaram, vermelho e amarelo, e permaneceu no vermelho e amarelo. Sempre acontece de ter alguma coisa diferente no meio, mas aí é uma coisa mais, como é que eu posso te falar, tem a ver com a espiritualidade do momento”.
JOSI MARINHO – Mais uma decisão que foi tomada há 60 anos e perdura até hoje. Que mensagem eles queriam passar quando definiram as cores amarelo e vermelho?
Valdilene Francisca de Souza – “Eu acho que, no momento que eles definiram isso, era como se fosse um momento de: ‘‘o amarelo significava Vitória, alguma coisa desse tipo, e o vermelho era por conta das lutas que aconteceram naquele momento’, e eles optaram pelo vermelho, por isso. Eu creio que foi o pensamento quando vovô definiu essas cores com o pessoal”.
JOSI MARINHO – No centro da bandeira de vocês tem uma boneca. Se a gente for comparar com o maracatu, geralmente é um leão. Por que a escolha da boneca?
Valdilene Francisca de Souza – “ É porque como o bloco da gente é feminino…Não basicamente né? Porque tem os homens também, mas a maioria é meninas. Aí é o que a boneca representa no centro da nossa bandeira. A gente tenta sempre buscar uma boneca parecida com o que a gente tinha. Porque a gente tem a nossa primeira boneca que andava com vovô. Ela saia os três dias de carnaval, aí ela fica aqui na sede. A gente não anda com ela”.
JOSI MARINHO – Você contou que o bloco Andaluza tem participação maior das mulheres. E a gente fala de um espaço geográfico: a zona da mata, historicamente marcado pelo machismo. O berço do desenvolvimento da economia baseada na cana-de-açúcar. Os senhores de engenho. O trabalho pesado no corte da cana. Tudo isso, de alguma forma, influenciou para o escanteamento das mulheres no trabalho e nas tradições. Vocês sentem ou sentiram em algum momento o preconceito?
Valdilene Francisca de Souza – “É um pouco preconceituoso, mas a gente tenta mostrar um lado diferente, né? Que a gente pode participar, a gente pode brincar, a gente pode fazer tudo aquilo que a gente tem vontade. Porque assim, se você observasse antes, nenhuma mulher poderia assumir a Diretoria de uma agremiação. Eram sempre os homens que tavam ali assumindo um Maracatu, um bloco, o que fosse, um caboclinho. Mas hoje não, hoje a gente já tem uma visão diferente. Hoje a gente já vê as mulheres assumindo, aquela responsabilidade, aquela preocupação, aquela despesa. Porque no final, ou a gente trabalha para ter, no final das contas um resultado onde a gente vai poder estar ajudando todas aquelas pessoas que estão ali com a gente, ou não vai levar a lugar nenhum. Acaba acontecendo… ficando para trás, como muitos dos grupos que não tiveram condições de estar levando a frente e foram se acabando, né? E a gente assim, a gente ainda tá porque tem aquela coisa assim, ‘você me ajuda” Aí tem painho que quando estou precisando para comprar isso, estou precisando para fazer aquilo…É quem me socorre. Eu digo vá, eu preciso para fazer lá. Mas aí é mais envolvido mulher. No grupo da gente tá mais mulher no momento”.
JOSI MARINHO – Literalmente é um exemplo de resistência. Na década de 1990 eram cerca de 30 blocos rurais espalhados pelo estado. Hoje três resistem na região da zona da mata. O Andaluza é o único em Tracunhaém.
Valdilene Francisca de Souza – “Eu acho que a gente fica como se fosse resistência… porque assim. A gente tá ali persistindo. Porque muitas vezes as pessoas não dão valor a nossa Cultura, né? Se você for observar direitinho, a gente é quase como se fosse esquecido. A gente tenta buscar, mostrar e assim … a gente fica observando que muitas vezes a gente não vai para uma apresentação porque é um bloco. As pessoas acham que é um bloco … o nosso bloco é esses blocos que acontecem nas cidades. Só que não, é diferente. A gente tem a história diferente, tudo é diferente. Aí eu acho que o que nos coisa é a resistência da gente mesmo, a resistência, persistência”.
JOSI MARINHO – Valdilene, noto você emocionada ao tratar desse tema, falar das dificuldades e preconceitos. Imagino o quanto vocês já enfrentaram durante essas décadas. Você já se viu vítima de preconceito dentro do universo cultural?
Valdilene Francisca de Souza – “A gente ficava meio desacreditado de tudo realmente . A gente tem aquela questão assim: ‘bloco Rural que é isso? Como é?’ Eu já tive ocasião de eu ir me inscrever num determinado local e lá eles me pedirem para eu modificar, para eu poder ter que participar de concurso, dessas coisas. Eu disse: ‘não, se você quiser que eu brinque aqui, vai ser do jeito que eu sou, mas eu modificar para ter que vir para aqui, eu não vou fazer isso’. Eu modificar para ter que participar de um concurso, de participar de alguma coisa, eu não faço isso. Vou continuar do jeito que eu sou, se quiser me receber dessa forma, você me recebe, se não, não tem problema”.
JOSI MARINHO – A identidade cultural de um povo ninguém tira. E é isso que vemos aqui. A promoção dessa cultura tem um papel crucial no fortalecimento social e econômico da sociedade. Sem contar com os impactos positivos no turismo e principalmente na educação. Baseado nessa política pública cultural, o Bloco Rural Caravana Andaluza do Engenho Abreus virou Ponto de Cultura.
CRIS XAVIER – Ser ponto de cultura é um reconhecimento por parte do Ministério da Cidadania. O grupo, o coletivo, a entidade com finalidade cultural precisa desenvolver e articular atividades em comunidades. Precisa ser agente de transformação social e do território. O ponto de cultura recebe um apoio financeiro e institucional, por parte do país.
JOSI MARINHO – Virar ponto de cultura foi um marco na história do bloco. O que começou como uma brincadeira mudou a rotina e realidade da comunidade.
Valdilene Francisca de Souza – “Assim, em partes é bom porque a gente pode estar fazendo um trabalho diretamente, tá diretamente com eles, né? Porque quando a gente não tinha esse recurso do ponto de cultura, a gente não podia estar com eles direto aqui para tá fazendo uma aula de um bordado, uma aula de e costura. Até mesmo tá usando os computadores. A gente não poderia, porque a gente não tinha como tá mantendo, tá ali, ter os materiais para compra. A gente só se juntava quando era para confeccionar as fantasias, quando era um mês antes. É sempre assim, sempre atrasada, é um mês antes do carnaval que a gente começa a fazer as fantasias. E assim já teve momento de a gente fazer uma fantasia, aí a gente teve uma apresentação na semana pré, quando a gente volta na sexta-feira, já o carnaval no domingo, chegar na sexta-feira e a gente diz assim: ‘essa roupa não tem brilho.’ O brilho que a gente esperava não tá, e a gente tem que fazer até o Domingo de carnaval, restando somente à sexta e sábado. Às vezes já teve momento de ser assim. E aí todo mundo… não ficou só ali só a costureira, foi todo mundo, se juntou todo mundo, até quem não tinha nada a ver veio para o grupo. A gente passou sexta, sábado e na hora da brincadeira sair, a gente terminando aqui de dar os avisos finais, mas a gente conseguiu fazer aquilo que a gente queria”.
JOSI MARINHO – Sabe uma pauta muito importante e que a gente percebe ela presente no seu discurso (?): a educação cultural. A Organização das Nações Unidas – ONU – tem uma agenda para o desenvolvimento sustentável do mundo até 2030. São diversas metas e medidas que devem, ou que deveriam ser tomadas. Entre elas está a compreensão intercultural, o reconhecimento e a valorização da diversidade cultural do mundo, além do fortalecimento, proteção e salvaguarda do patrimônio cultural do planeta. O que vocês têm feito para levar essa cultura para mais e mais pessoas e preservar essas tradições?
Valdilene Francisca de Souza – “A gente fez algumas aulas-espetáculo. Onde a gente foi levar um pouco do conhecimento daqui para as escolas. Onde a gente apresentou a história de quando surgiu, para que mais pessoas conhecessem. Porque assim, eles moram aqui, sabem que existe o bloco, sabem como brinca, mas não conheciam a real história. Aí a gente fez aulas-espetáculos nas escolas do município e escolas do estado também. Aí a gente fez essas apresentações de como surgiu, a história no geral, e após a história a gente fez uma apresentação do grupo, onde o grupo fez a dança, mostrou a dança, como eles faziam, todos os caracterizados”.
JOSI MARINHO – Existe alguma regra, algum pré-requisito, experiência para participar do Andaluza?
Valdilene Francisca de Souza – “Não, a gente não tem assim nenhuma regra que diga assim: ‘Ó, você só pode brincar se tiver isso’. Não, todas as crianças e adolescentes que chegam pra gente ‘eu quero fazer parte do grupo’, certo, a gente aceita. A única coisa que a gente pede é o respeito, porque assim, é o que a gente mais trabalha. Um respeitar o outro. Na medida que a gente está participando de um grupo, a gente tem que saber o momento da gente falar, da gente se expressar. Não tá atropelando a fala do outro, tá ali, observar, participar, mas com aquela coisa assim de ter o respeito e a responsabilidade. Eu acho que isso é o principal para nós a gente não tem uma regra Básica para poder participar não”.
JOSI MARINHO – E todo esse conhecimento está exposto para o público.
Valdilene Francisca de Souza – “Você chegando na cidade, você perguntar onde é o andaluza, aí todo mundo vai dizer assim, do lado da escola Walfredo… aí do lado da escola Walfredo vai ter pessoas que você dizer ‘onde é o Andaluza?’ … ‘nossa bloco Andaluza?’ vai lhe dizer direitinho…”.
JOSI MARINHO – O espaço também conta com os próprios estudantes, biblioteca, material escolar… sem contar com as atividades.
Valdilene Francisca de Souza – “É corte e costura que a gente faz, Confecções das Fantasias são feitas aqui. As vezes acontece da gente fazer cursos de Estandarte”.
JOSI MARINHO – Curioso que mesmo com tanta tecnologia o que é feito aqui é artesanato…. O trabalho é manual, né?
Valdilene Francisca de Souza – “É porque assim, quando a gente tá ali fazendo manualmente a gente tá… Não sei, a gente tá assim… Praticando. Além de estar praticando, a gente vai estar ali unido, porque vai estar um dando uma dica.. ‘Ó, não, não é desse jeito, vamos fazer dessa forma para ver como é que faz’. Aí a gente está fazendo de formas diferentes para ver o que vai ficar ideal para aquilo que você tá querendo. Todo mundo vem para cá. Aí precisa fazer um bordado… Vamos lá… Vamos ver se esse bordado dá certo. Aí não fica só uma pessoa, a gente sai pedindo opinião do grupo. Aí tanto dos brincantes, como da diretoria”.
JOSI MARINHO – E qual material é usado nessa confecção?
Valdilene Francisca de Souza – “A gente usa lantejoulas, usa tecidos, bicos, bordados, Lã… são os materiais que a gente usa, emborrachados para confeccionar os adereços da cabeça”.
JOSI MARINHO – agora me veio uma curiosidade. Onde vocês se apresentam quando acaba o carnaval?
Valdilene Francisca de Souza – “A gente participa de alguns eventos que acontecem: Fenearte, Festival de Inverno, Feira de artesanato no próprio município, onde a gente também está participando. A gente participa de eventos que acontecem no município, ou até mesmo em algum município que se interessa por alguma apresentação nossa, aí a gente vai”.
JOSI MARINHO – Boa parte da história do Andaluza foi registrada na memória dos seus integrantes e fundadores. Uma tradição que foi repassada pela boa conversa, pela contação de causos e histórias. Mais uma vez a oralidade bem presente no nosso podcast. Esse nosso episódio não deixa de ser um registro histórico de tudo que já aconteceu, mas em fevereiro de 2023 um livro escrito pelo professor, escritor e historiador pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE – Severino Vicente da Silva, conhecido como Bio Vicente, eternizou no papel a história do Bloco Rural Caravana Andaluza. O nome do bloco foi título do livro.
CRIS XAVIER – Uma foto tirada de cima ilustra a capa do livro. Essa foto mostra as porteiras do Engenho Abreus. Elas estão abertas, como se dessem as boas-vindas ao leitor. Duas filas com baliseiras e personagens do bloco estão nas laterais. Puxando as filas, de um alado a burra e do outro a catita, personagens do bloco. No centro da capa o estandarte símbolo do bloco. O piso do engenho é barro, um amarelo bem queimado. Essa cor predomina na capa. Na parte inferior o nome do livro em destaque e mais abaixo o nome do autor.
Valdilene Francisca de Souza – “Eu acho que foi o que mais marcou foi esse livro. Porque ali a gente pode estar colocando a nossa história. Mais tarde quando a gente não tiver aqui, ele vai estar ali para as pessoas que estão vindo. Esse livro foi um projeto pelo Funcultura, onde a gente teve a parceria com professor Bio Vicente, que é o historiador que está lá contando toda a história, que começou desde quando o bloco foi fundado. Tem também história falando da construção da própria cidade. Foi no mesmo ano. Ele é de 20 de dezembro e a gente é de Setembro. Aí tem Contando um pouco da história do município do início, e a nossa história”.
JOSI MARINHO – Queremos voltar a falar de valorização. Valorização desse trabalho de vocês. Já falamos aqui do título que Tracunhaém carrega, de terra do barro. Vocês se sentem incluídos e valorizados? Esse título de alguma forma contempla vocês?
Valdilene Francisca de Souza – “Eu acho que Não. Porque assim, quando fala a capital do Barro vai só vivenciar o artesanato em Barro e o nosso artesanato? A gente fala muito sobre isso, né? Porque não só tem o artesanato em Barro. Tem o trabalho que a gente faz, o trabalho que o pessoal do Maracatu faz com as lantejoulas, artesanato que eles fazem. O nosso tem outros artesanatos no crochê, tem os bordados e assim eu acho que quando fala assim estava vivenciando só o artesanato em Barro. O nosso recurso, a gente só tem no carnaval. E para a gente comprar alguma coisa quando a gente precisa de algum material extra… ‘a gente vai fazer uma apresentação e tá faltando organizar alguma coisa’… aí eu recomendo meu pai. Ele é quem é a nossa sustentabilidade financeira”.
JOSI MARINHO – Mediante tudo isso, o que vocês buscam?
Valdilene Francisca de Souza – “O que a gente busca realmente é a valorização do nosso grupo. Eu acho que ainda tá… não tá aquela valorização como deveria ser. Porque se você observar a questão dos maracatus… eles são bem mais…visualmente. De qualquer forma eles são bem mais valorizados do que a gente. E como a gente é o único. Aí deveria ter um… mas é meio complicado, né? Até mesmo aqui dentro do nosso município, com os outros grupos”.
JOSI MARINHO – Valdilene, nossa conversa chega ao fim… mas foi muito bom e prazeroso conhecer essa história e aprender mais sobre a cultura do nosso povo. Muito obrigada por esse bate-papo.
Valdilene Francisca de Souza – “Foi um prazer e estamos aqui… “.
ENCERRAMENTO
JOSI MARINHO – Esse foi o terceiro episódio da temporada especial do Podcast Nossa História, Nossa Memória. Tem muita coisa boa pra gente conhecer. Mas te convidamos para mergulhar ainda mais nos assuntos tratados aqui através das nossas redes sociais. Procura lá @podcastnossahistoria no Instagram.
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– Vamos adorar saber o que você achou do episódio.
– Também estamos em todas as plataformas de áudio. Começa a seguir e a curtir.
– Aproveita para compartilhar e comentar. E, claro, espalha esta conversa para todo mundo, manda para os amigos, vizinhos.
– Também vale a pena ouvir os episódios das nossas temporadas anteriores, com entrevistas com foco na proteção, preservação, conservação e salvaguarda dos patrimônios culturais de Pernambuco. Também tem uma temporada incrível sobre a história do patrimônio ferroviário de Pernambuco.
– Ah, não esquece de passar no nosso site nossahistorianossamemoria.com.br
– Este podcast conta com trilha sonora assinada pelo músico pernambucano João Paulo Rosa
– O roteiro e montagem foi do jornalista Gedson Pontes.
– Audiodescrição da produtora cultural Crislaine Xavier.
– No nosso canal do Youtube, no Facebook e no Instagram, nossos episódios estão traduzidos em Libras – Língua Brasileira de Sinais pela tradutora Ewelyn Xavier
– Gravação e finalização: Alisson Santos
– Videomaker: Julio Melo.
– Designer: Murilo Silva.
– Web Designer: Saulo Ferreira
– Apresentação e produção da jornalista Josi Marinho.
– Coordenação geral e reportagem do jornalista, documentarista e produtor cultural, Salatiel Cícero.
Até a próxima!!!!
EPISÓDIO 4 – MUSEU ENGENHO POÇO COMPRIDO
ROTEIRO
Josi Marinho – O Podcast Nossa História, Nossa Memória é realizado com o incentivo do Funcultura, Fundarpe, Secretaria de Cultura e Governo do Estado de Pernambuco.
Josi Marinho – Nosso episódio hoje é sobre mais um patrimônio cultural da Zona da Mata Norte de Pernambuco. Um prato cheio para quem gosta de história. a gente volta tempos atrás, para o século 18, a fim de conhecer a história do único engenho ainda preservado daquela época: o Engenho Poço Comprido.
Josi Marinho – Eu sou a jornalista Josi Marinho. Mulher negra, produtora cultural e realizadora desse projeto.
Cris Xavier – E eu sou Cris Xavier, mulher negra e produtora cultural. Você já sabe que este podcast conta com recursos de audiodescrição. Ele é importante para contar histórias para pessoas com deficiência. Esse som … (pausa) … indica que você vai ouvir minha voz descrevendo algo importante do nosso episódio.
Josi Marinho – Para contar essa história, estamos no município de Vicência, que fica na Zona da Mata Norte de Pernambuco, a mais ou menos 90 quilômetros do Recife. O nome do município é uma homenagem para uma senhora, muito católica, chamada de Vicência Barbosa de Melo e conhecida como Dona Vicência. Ela possuía uma propriedade nas terras onde hoje é o município e mandou construir uma capela. O local virou ponto de encontro para viajantes. Isso foi em meados de 1879, no século 19. Vicência passou a ser vila, depois distrito de Nazaré da Mata e só em 1928 tornou-se município. É importante a gente entender e conhecer essa história, porque muito antes dela, nas terras onde hoje se encontra o Distrito Murupé, área rural, pertencente a Vicência, existia um engenho chamado Poço Comprido. Como falamos, existem poucos registros históricos, mas pelo que se sabe, esse engenho surgiu no século 18. Quem apresenta essa história é Joana D’arck Ribeiro ela é filha de Vicência, diretora do Ponto de Cultura e Museu Comunitário Poço Comprido.
Cris Xavier – Joana D’arck Ribeiro é uma mulher parda, de 50 anos, com cabelos claros e levemente ondulados. Usa óculos arredondados e tem uma presença forte. É bióloga de formação, professora, trabalhou por sete anos no laboratório de análise no engenho laranjeiras, em Vicência.
Joana D’arck Ribeiro – “ Eh, eu sou natural daqui de Vicência, Mata Norte. Então é comum na nossa região, a gente cresce nesse mundo, né esse mundo de engenhos. Eu sou fãzona de Maracatu Rural. Mas na minha época assim, eu criança, tinha medo. “Então é a mesma história, história de cana-de-açúcar, história de Engenho, história de interior. Então, tudo isso se se entrelaça. Minha mãe é professora. Meu pai, ele trabalhava muito nos barracões de Engenho, que é do Comércio. Então assim, hoje está aqui no Poço Cumprido também é muito … não só o Poço Comprido, mas outros engenhos de trabalhar essa parte com patrimônio é muito… eu amo de paixão, né? Gosto demais porque é uma coisa também, que já vem desde lá da minha vivência toda, que eu me entendo por gente”.
Josi Marinho – Nessa sua fala tem muita memória afetiva. Já adiantando um pouco nossa conversa, o engenho lá do século 18, está preservado e hoje a casa e a capela são Patrimônio Histórico e Artístico Nacional tombados pelo Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Josi Marinho – Em outros episódios tivemos a oportunidade de aprender o que é um engenho. É importante relembrar.
Cris Xavier – Engenho é o nome dado para a instalação industrial usada para processar a cana-de-açúcar. Geralmente nas terras do engenho a cana é plantada, colhida, triturada, fervida até que o açúcar seja extraído. Também são produzidos melaço e álcool. Quatro edificações compõem um engenho: a casa, a capela, a moita e a senzala.
Josi Marinho – Mas vamos lá! Vamos de fato embarcar nessa história. As terras do engenho tem cerca de mil hectares, mas a parte histórica se concentra em uma área de quatro hectares. O que equivale a aproximadamente cinco campos de futebol. As terras pertencem ao Engenho Laranjeiras, que administra toda parte produtiva do território. Já a parte histórica é gerida pela Associação dos Filhos e Amigos de Vicência – AFAV Existia muita curiosidade sobre o local, mas pouca informação. Muitas pesquisas foram feitas e em uma dessas alguém de fora apontou um potencial turístico e histórico. E um processo de aceitação e aprendizado a comunidade começou a valorizar e tomar conta desse tesouro. Joana D’arck, nos recebe e abre as porteiras desse espaço pra gente.
Cris Xavier – O engenho fica localizado numa área alta, como se fosse uma colina. Durante a nossa visita o tempo está nublado e venta bastante. A principal estrutura, a que chama mais atenção, é uma casa grande também elevada. Parece um primeiro andar. A fachada é formada por grandes arcos na parte inferior, que servem de sustentação para a estrutura. Em cima uma longa varanda de madeira. As cores predominantes são branco e azul. Colada com essa casa grande existe uma capela simples, porém com características do estilo barroco. Na frente dela, uma longa escadaria que leva até a porta principal, que fica no centro da capela e também é pintada de azul. Acima da porta, nas extremidades, duas janelas azuis. Elas possuem um pequeno parapeito de madeira. O material da porta e janelas também é madeira, pesada e grossa. É uma arquitetura simples com formas onduladas na fachada e uma cruz branca no topo.
Josi Marinho – Vamos entender o contexto histórico do século 18. Era a época do Brasil Colônia. Nosso país ainda era submisso a Coroa Portuguesa. As grandes expedições aconteciam no interior por minerais preciosos, principalmente ouro. A economia era baseada na exploração mineral, agrícola e escravista, com o uso de mão de obra africana. O que entendemos como país, na época era dividido por capitanias hereditárias. Foi uma forma de dividir o território. As áreas eram concedidas aos donatários, geralmente pessoas nobres que tinham a função de desenvolver, explorar e administrar o espaço. Hereditário porque esse direito passava de pai para filho. Aqui tem um ponto importante para nosso episódio. Pernambuco era uma capitania hereditária importante. A principal atividade econômica era a produção açucareira. Olha nossos engenhos aparecendo aí. Ao norte da capitania hereditária de Pernambuco existia a capitania de Itamaracá… Mais na frente, com o passar dos anos, boa parte dessa capitania foi incorporada ao que hoje é o estado de Pernambuco. Ainda na era das capitanias, existiam as sesmarias, que eram concessões de terras doadas para uma determinada pessoa ou família com o objetivo da exploração agrícola. É nesse ponto que aparece o engenho poço comprido.
Joana D’arck Ribeiro – Na verdade antes de ser engenho ele foi sesmaria. Porque sesmarias eram grandes poções de terra que eram dadas para que fossem colonizados. Então aqui na nossa região, a gente tem história de duas sesmarias. Sesmaria Vicência, que leva também o nome além da senhora lá que deu origem, também esse é o nome da cidade. Mas a gente teve uma sesmaria com esse nome de Vicência, e a outra era Poço Comprido. Então isso aqui é um lote de terra imenso, para que fosse colonizado. Então a história que a gente tem aqui, o primeiro proprietário aqui da família Cavalcante, vindo da parte da terra de Goiana, município. Porque também tudo é norte, né? Aí com o passar dos tempos esse gene ele vai se desmembrando, as famílias vão se casando e tal. Então cada um vai ser desmembrando do engenho.
Josi Marinho – E por que escolher exatamente esse local, onde hoje é Murupé, distrito de Vicência, para começar a sesmaria?
Joana D’arck Ribeiro – “Essa a escolha da implantação de um Engenho, ele precisa acompanhar o curso d’água. Porque para você ter uma indústria, você tem que ter água. A gente aqui tá com o nosso grande Rio Sirigi, que começa aqui em São Vicente Férrer, e o Vale do Sirigi. Ele compõe o município de São Vicente, Vicência, Aliança e em Condado as águas do Sirigi vão desaguar no Capibaribe Mirim, que também é outro rio que nasce em São Vicente. Então um local para construção dos edifícios de um Engenho, seria um local próximo ao Rio e ele tinha que estar numa Colina, como nós estamos aqui. Para que você tenha toda uma localização dentro do território. Então se constrói a casa de frente para fábrica, que a gente chama de moita do Engenho, né? Então é onde vocês estão vendo ali. Então ali a gente tem a moita do Engenho, aqui tem a casa a capela ao lado”.
Cris Xavier – Nesse momento Joana D’arck aponta do alto da varanda para uma estrutura bem rústica que fica a alguns metros na frente. É uma casa branca, simples, com aquelas telhas de barro/cerâmica alaranjadas. Dentro tem um espaço amplo, como uma grande sala. Era nessa edificação onde a cana-de-açúcar era moída e o suco, ou o caldo da cana era extraído. Também tem uma grande chaminé onde o bagaço da cana era queimado. Alguns engenhos usavam o calor dessa queima para aquecer as caldeiras, secar o açúcar e evaporar o caldo da cana para cristalizar o açúcar.
Josi Marinho – Durante nossa conversa você falou a respeito do Rio Sirigi. Ele passava pelo engenho?
Joana D’arck Ribeiro – Esse rio ele já foi bem rente, bem próximo da moita. Porque esse engenho também já foi movido a roda d’água. Então mais uma questão de você estar muito próximo dos rios.
Josi Marinho – Aqui da varanda, a alguns metros da moita a gente observa dois baobás. Em outro episódio aqui do Podcast Nossa História, Nossa Memória, a gente aprendeu que o baobá é uma árvore nativa de várias regiões da África.
Cris Xavier – O tronco do baobá é beeem longo e ainda armazena água. A árvore tem uma casca grossa e pode ser vista de longe. O crescimento dele é lento e pode levar até 10 anos para atingir o estágio de muda. A árvore é costumeiramente chamada de “árvore da vida” porque pode viver por milhares de ano.
Josi Marinho – O baobá tem uma importância cultural enorme. É uma árvore muito atribuída aos escravos que foram trazidos da África. Eles plantavam para tentar se conectar de alguma forma a terra de onde eles foram tirados. Esses baobás são do início do engenho? Da época das capitanias? Porque assim, tendo em vista o contexto histórico, possivelmente tudo isso aqui foi operado por mão de obra escrava, no início. Deve ter tido uma senzala em algum lugar aqui.
Joana D’arck Ribeiro – “Possivelmente, a Senzala era na parte direita. O que nos comprova, nos dá muita afirmação disso é a existência de dois baobás. São os que estão aqui. São Centenários. Eles estão inclusive catalogados nos baobás centenários de Pernambuco. Possivelmente, seria ali. O Engenho que teve Senzala, que teve escravos também. A gente não tem mais a presença do equipamento, da Senzala. A gente não tem notícia de como ela foi demolida ou se ela foi se deteriorando também ao longo dos tempos. A gente há de convir que essa construção aqui, por exemplo, essa parte superior a nós, foi construída em taipa. Porém, essa localização dela, você ter essa ventilação, isso promoveu sim, para que ela conseguisse ficar, permanecer desde os anos de 1700 até aqui. Porque aqui o engenho do século XVIII certo, a gente tem uma publicação de 1732, quando aconteceu aqui neste Engenho um batizado”.
Josi Marinho – 1732… Há mais de 290 anos. Que curiosa essa publicação. Mas pera aí… Para ter batizado é preciso ter alguma estrutura já pronta, certo?
Joana D’arck Ribeiro – “Né, então isso tá publicado. Teve esse batizado em 1732. Então a gente diz que é do século 18. Porém a gente também imagina o seguinte: a casa, ela foi anterior à capela. A capela é mais recente. Se 1732 você tem um batizado lá, aí se converte que já poderia estar aqui essa instalação até anos antes de 1700. Então a gente também trabalha com essa hipótese, dele ser do final de 1600. São, de fato, muitas histórias ainda para se desvendar, para se pesquisar. A gente tem uma fonte imensa. Por isso que é muito importante a gente sempre que puder tá trabalhando e promovendo possibilidades para que as pessoas possam pesquisar a questão da educação”.
Josi Marinho – É uma estrutura incrível, mas sabemos que além de barro, taipa, cerâmica… Tudo isso também foi construído com muito suor, sangue, alma de pessoas escravizadas. Há pouco falamos da senzala e dos baobás. Existe algo registrado sobre a história dessas pessoas?
Joana D’arck Ribeiro – “A gente tem poucas coisas publicadas, sobre a própria história. Não só em edificação, mas a própria história aqui sempre se repete… foi uma Sesmaria. A família veio de Goiana tal, e realmente a gente não tem história. O que a gente entende do povo escravizado, a gente vai ter em matérias de jornais. Os jornais que circulavam na época, quando tinha algum negro que fugiu, fugitivo. Então, assim, isso tem bastante”.
Josi Marinho – Onde ficam essas publicações? Como vocês tiveram acesso?
Joana D’arck Ribeiro – “Em Recife, lá nos arquivos públicos, têm a história de todos os municípios. E assim, o ideal seria que todos os municípios fossem catar, né? Digamos assim, toda a sua história, e poder tá contando no seu município. A gente conseguiu fazer um pouco disso, muito pouco. A gente implantou aqui uma exposição que se chamava justamente “a História Afro- Brasileira do Vale do Siirigi.” Ah teve escravo e o pessoal sempre fala de outras localidades e esquece que no nosso contexto, nosso território, a gente também teve o povo escravizado. Nós utilizamos essas informações, que colhemos desses jornais, que estão tudo lá publicado, imprimimos e a gente pode mostrar aqui. Era para ter passado só três meses, passamos quase um ano com essa exposição aqui. Então assim, sempre é através de um simples relato, mas era um relato que você via o tratamento. Então assim, as pessoas não eram ‘José da Silva’. Era um negro que tem um dente dessa forma, que tem uma ferida na perna, que tem uma orelha. Sempre a pessoa era caracterizada, né? Sua forma física. E para colocar as pessoas atrás, então uma recompensa ‘de tanto’ para quem conseguir. Então assim, são coisas duras que a gente ficava vendo mas foram a nossa realidade”.
Josi Marinho – A construção da senzala provavelmente não teve grandes investimentos, se restringindo por exemplo, a um material de taipa… Madeira. O tempo provavelmente sucumbiu essa estrutura. Isso me leva a pensar no apagamento da memória do povo negro.
Joana D’arck Ribeiro – “ Como se fosse uma política do esquecimento, né? Que de fato, isso é real. Quem tá escrevendo a história, entendeu? Então assim, quem escreve as histórias, sobretudo quando é uma documentação, e não é coisa de ficção? A história daquela localidade, a depender de quem tá escrevendo. O pessoal tá falando mais da sua família. Ou sempre tem nomes, nomes dos heróis. Sei lá, uma batalha nome tal, de tal herói, mas são muitos nomes que contribuem bastante, nem sempre vão estar nessa história. Tem pouca coisa publicada, documentada. Se o que tem, a gente só vai ter mais as histórias dessas pessoas, quem foi o dono disso, o dono de tal engenho, o dono daquelas terras. O senhor, Dono de Tudo, proprietário. Então são esses nomes que vão aparecer. Quase nunca vai aparecer de um trabalho de uma pessoa escravizada. É por isso, que é muito pertinente sim que as pessoas possam estudar, possam escrever, desmistificar tantas histórias”.
Josi Marinho – Que observação pertinente! As publicações jamais descreveriam por exemplo onde ficava a senzala aqui.
Joana D’arck Ribeiro – “A gente tem quase certeza que a senzala seria ali… a gente acredita que aquela casinha que você tá vendo ali seria Senzala. Claro que essa casa branca, que tá faltando um pouco de reboco ali… Mas ela é uma casa um pouco comprida, com duas janelas de frente, uma porta, uma porta até entre aberta. Tá uma parte sem reboco na frente e ela é uma construção, digamos assim, mais antiga daqui desse Engenho, e está muito próximo dos dois baobás. Então, isso é uma coisa certa, porque entre os baobás e a casa, que seria Senzala, a gente tem uma vacaria também. Um espaço para alimentação dos animais. O que nos leva também, a meio que afirmar que,ali, seria a Senzala, é que essa casa é a mais antiga daí. Ela tem não é um único vão, ela tem portas dos lados. Ou seja, a gente acha que é só uma casa ali, mas não é. Ali tem umas três, quatro casas numa construção”.
Josi Marinho – Daqui da varanda, enquanto a gente conversa, tem um objeto que chama atenção. Eu já sei que se chama mourão.
Cris Xavier – O mourão é o nome dado a um tronco de madeira. No Engenho Poço Comprido ele fica localizado bem de frente à casa grande e possui quase dois metros de altura.
Josi Marinho – O que esse tronco representa e por que ele é mantido nesse espaço? Seria o tronco usado para castigar os escravos?
SONORA
Joana D’arck Ribeiro – “O que é que nós falamos… ele pode até ter sido, sim, o tronco dos maus tratos, digamos assim: das pessoas escravizadas, mas não nesse local. Então, o que nós defendemos e acreditamos é que ele veio trazido para cá. E aqui ele tem uma função. O transporte naquela época era de cavalos, de jumentos, jericos. Então, era o local de amarrar os cavalos. A gente fala muito isso, porque pelo que se conta, também da parte histórica, nunca.. digamos assim.. o castigo, os açoites, eles aconteciam na frente da casa, da casa do senhor de engenho. Então assim, A gente nunca diz que esse foi o local, mas que com certeza, há fortes indícios de que esse tronco tenha sido. Pode ser sim. Porque você encontra marcas em volta dele, de ferramenta, de ferro, de ferradura”.
Josi Marinho – Esse espaço aqui também é um museu e claro, recebe visitações. Como as pessoas lidam com esse símbolo?
Joana D’arck Ribeiro – “Eu gosto muito de responder isso. Vai ter aquele visitante que chega, quer fazer aquela cena, mas aqui nenhum de nós, e a gente também trabalha muito nesse foco, a gente não tem que estimular isso aí, essa reprodução dessas dores e sofrimento. Não, a gente não acha isso bacana. Até porque isso não é para ser tido como uma coisa banal e nem engraçada. Porque tem pessoas que realmente fazem como se ele fosse aí, vai ter que açoitar o outro, que vai estar fazendo aquela posição do açoitado. Mas a gente se recusa a fazer isso. A gente procura dar essa informação. Aqui não era um local do açoite. Então tem muito disso. Mas de fato, infelizmente, ainda há muita gente que chega e se agarra ali no pau, naquele tronco, pra que alguém vá açoitar. Então a gente aqui é estimulado, ninguém nem açoita e nem fotografa”.
Josi Marinho – São muitas histórias e curiosidades sobre o Engenho Poço Comprido e a gente guardou uma de propósito até agora. Aposto que você aí do outro lado chegou aqui se perguntando… Mas por que o engenho tem esse nome? Por que Poço Comprido? É claro que a gente não ia te deixar sem essa resposta. Joana … Responde essa pra gente, por favor.
Joana D’arck Ribeiro – “Poço Comprido, a gente aqui tem uma hi stória… o Vale do Sirigi é muito rico em água, sobretudo água subterrânea, muito forte.. Apesar de que, a gente ainda tem tantos lugares que não tem água, tem que ter água encanada, mas não tem água todos os dias. Então assim, isso é uma contradição imensa. Poço Comprido é conhecido porque aqui tinham vários poços de água. Até hoje ainda tem. E algum desses aí, podia ser cumprido, aí vai ficou Poço Comprido. A gente também não tem isso documentado, né? Isso é o que a gente.. é a parte da oralidade… é o que foi passando de gerações em geração”.
Josi Marinho – (Ar de Riso) É … Eu aposto que você esperava uma história beeem mais elaborada… Mas as vezes é isso mesmo… Um poço que era muito comprido…. Deixa tudo na conta da história passada de boca em boca…
Josi Marinho – Olha…. Essa conversa tá muito boa, mas estou curiosa para conhecer outro espaço aqui do engenho… Mas antes, nosso podcast tem acessibilidade para pessoas com deficiência. Por isso estamos sempre descrevendo as coisas. Aqui, nós temos uma visão de visitantes. Já você Joana, convive com esse espaço. Por isso, queria te convidar a fazer esse exercício de descrição. Descreve pra gente por favor, essa belíssima visão que temos daqui.
Joana D’arck Ribeiro – “A gente aqui tá na varanda do engenho. Tem uma visão privilegiada, digamos assim, de toda parte territorial, da parte frente e dos lados, né? Porque atrás a gente também vai ter o Pomar, que era uma área muito importante. Então assim, vamos imaginar naquela época, a gente tá em uma área rural, então alimento, então muita coisa vinha também desse pomar, desse plantio. Então nós temos à frente a moita. E também entender que o nome Engenho é de Engenhoca, né? Então Auele maquinário que vai moer, para que a cana seja esmagada, extraído o caldo e produzido açúcar, mel e cachaça, precisa desse equipamento. Aquilo ali que é o engenho. Aí depois com o tempo engenho ficou sendo todo a fábrica”.
Josi Marinho – Da varanda, a gente entra na casa, onde por vezes acontecem algumas exposições… O salão é amplo.
Cris Xavier – O piso é de madeira e possui alguns desnivelamentos, mas é seguro para adultos, crianças e pessoas com deficiência. O espaço é grande, tem vários cômodos e é possível ver alguns móveis ou objetos antigos, digamos assim, como um fogão a lenha, candieiros, bule, louças.
Josi Marinho – Também existe um corredor, uma espécie de pequena passarela que dá acesso à capela.
Josi Marinho – E é dessa capela que falamos agora. Estamos numa edificação incrível.
Joana D’arck Ribeiro – “Aqui é a Capela de São João Batista. É o santo padroeiro daqui. Na capela também é o local onde eram enterradas as famílias. Ao lado da Capela seria o cemitério dos escravizados. Vamos imaginar naquela época, quando ainda não tem cidades formadas. Tudo acontecia nos engenhos . Então a parte econômica, você tem todo o plantio da industrialização da cana-de-açúcar. A parte religiosa, na capela. Você tinha casamento, batizado, missas aconteciam nas capelas. A parte social, aqui é um lugar de muita festa, por isso que a gente hoje trabalha na nossa proposta de Ponto de Cultura de Museu. A gente faz a parte da visita, da visitação para contar história para educação patrimonial. A gente promove cursos, mas também promove muita festa, porque aqui também, historicamente, é um local de muita festa. Então assim, os engenhos ao redor vinham tudo para cá. É bem importante pra gente”.
Cris Xavier – Por dentro a capela tem o piso de blocos de barros, grossos e ásperos. Não é um espaço grande, mas é possível acomodar algumas dezenas de pessoas. De frente para a porta, um grande arco, e no meio um altar com espaço para três imagens. O altar parece ter sido esculpido. A cor se assemelha a um marfim ou bege. Na parte de dentro desse grande arco o teto é todo forrado com madeiras pintadas de azul. No centro desse teto um quadro pintado. A ilustração é o batismo de Jesus. Do lado direito, João Batista aparece em pé segurando uma cruz. Jesus está no rio, em uma posição mais baixa. A mão de João Batista está na cabeça de Jesus e acima de todos uma pomba irradiando luz. De cada lado do grande arco central, tem um pequeno altar também em formato de arcos. Eles possuem espaços para imagens e têm detalhes dourados e também parecem esculpidos e desenhados. O telhado é sustentado com madeiras. Do lado esquerdo existe um púlpito elevado, parece mais um camarote para uma pessoa só. Falando em camarote, existe um espaço, como uma galeria, do lado de cima… Um espaço reservado e sem acesso pelo interior da capela. Parte da estrutura ainda é original da época.
Joana D’arck Ribeiro – “Nesse contexto da civilização do açúcar não queria dizer que todo mundo tinha direito a entrar na capela e assistir essa missa. Então é comum quando você vê as fotografias das antigas capelas, que tem um alpendre na frente. Aquilo significa dizer que tem pessoas que assistiram a missa do lado de fora. Porque eram pessoas chamadas de catecúmenos, que são pessoas que não eram batizadas. E tem a história também que, para assistir à missa, quem não tivesse calçado não poderia entrar na capela”.
É uma capela de um porte grande, digamos assim, a nível de ser uma área rural. Ela é, digamos, que é a segunda depois da moita do Engenho. Ela é a construção que é feita com uma verdadeira fortificação. Então as paredes são muito grossas, justamente porque também tem essa história de ser lugar de Deus, né? Tá mais próximo de Deus, do Senhor. Tipo a Fortaleza.
Josi Marinho – Vamos falar um pouco do altar. O que a história nos fala sobre ele?
Joana D’arck Ribeiro – “As imagens que a gente tem aqui hoje, elas são réplicas das originais. As originais ela se encontram no IPHAN, porque quando aqui foi tombado, então isso foi levado pra sua melhor proteção , em Recife. E lá estão. E aí para que a capela não ficasse sem suas imagens, para quem segue o catolicismo, então foram feitos as réplicas pelo mestre Ademar de Júpi, um exímio escultor de madeira lá do Sertão. Então aqui a gente tem as imagens de São João Batista, que é o santo padroeiro. Mas também tem Nossa Senhora do Rosário. Tem Jesus. Agora é uma capela que já teve missa. Mas a gente não tem missa periódica, mas já teve batizado. A gente aluga para casamento. Ela tem toda uma funcionalidade e também é um espaço que a gente utiliza como um espaço para seminários. Tem uma acústica Bacana. Não tem problema nenhum de ter algum grupo se apresentando ali, seja artístico, de música e teatro, de circo. Realmente é um local bem eclético que dá pra gente trabalhar dentro das Artes. A gente trabalha em qualquer espaço aqui sem ter nenhum problema de ‘Ah, mas tá fazendo dendo da igreja’. Sim! A gente tá trabalhando cidadania, trabalhando educação patrimonial. Hoje é mais usado, digamos assim, como anfiteatro”.
Josi Marinho – Chegamos aqui por uma passarela dentro da própria casa. Estamos em um espaço elevado, espaço do couro, uma espécie de galeria. Daqui de cima temos a visão de toda a igreja. O que a história conta sobre esse espaço?
Joana D’arck Ribeiro – “É uma característica que hoje só tem aqui no Poço Comprido, que é ter uma ligação, que é uma passarela que liga a capela, onde nós estamos, a casa grande. A gente tinha em Pernambuco cinco engenhos que tinham essa característica. Alguns engenhos não existem mais e, o Poço Comprido, ele, além de existir, ele ainda permanece, e a gente tem essa ligação. Há quem diga que essa ligação era para facilitar, para que a família patriarcal viesse assistir a missa, ter esse trajeto, mas também para não se misturar com os demais da comunidade. Então ele tem um púlpito. O púlpito ele tá acima da comunidade que está assistindo a missa lá embaixo. É onde de início os padres celebravam a missa, de costas pros fiéis, porém de frente para as imagens, do altar. Ele subiu depois daquela escada, que tem ali ao lado, e do púlpito, que ele vinha fazer aclamação do Evangelho. Vem fazer só homilia, mas o couro ainda tá mais acima do que o próprio, do que o próprio padre. Aqui a gente teve um Capelão. Isso também mostrava o poderio, digamos assim, desse engenho de açúcar. Era um Engenho que ele tinha um Capelão que morava aqui”.
Josi Marinho – E tem alguma história desse capelão?
Joana D’arck Ribeiro – “E a gente tem até a história que o Capelão trouxe o irmão de Portugal. Ele conseguiu com que o irmão dele se casasse com uma das filhas do dono desse engenho.E aí foi quando começou um sobrenome que é muito conhecido hoje em dia que se chama ‘Gaião’. Porque eles eram da cidade de Gaia, em Portugal, da Vila de Gaia. E isso também a gente foi sabendo e construindo essas narrativas, que a gente fica escutando tanto. Esse sobrenome ‘Gaião’ não existe em Portugal. Ele só existe aqui no Brasil. E aí começa a se dizer, muita gente que saiu daqui tem esse sobrenome. Mora em outros locais do Brasil, mas são parentes ou de alguém daqui do Poço Comprido. Então há quem diga que esse sobrenome ‘Gaião’ realmente de fato se originou aqui”.
Josi Marinho – Você já disse que, como não existiam cidades, tudo acontecia nos engenhos, inclusive os enterros. E esse espaço aqui possui muitos túmulos. É possível saber quem foram as pessoas sepultadas aqui?
Joana D’arck Ribeiro – “É… a gente não tem de fato, historicamente, quem são as pessoas, mas a gente tem espaço que, por exemplo, não tem ninguém. Que não tem mais osso ali. Poderia ser para futuros. Agora quando na restauração nós chegamos aqui. Aqui tem uma urna imensa, muito grande que ficava na sacristia. E era uma urna que ela tinha correntes em volta dela. E o que é que aconteceu? Chegaram os projetistas que estavam lidando aqui com restauro, chegaram a conclusão, que essa forma teria que sair, ser removida, porque ali não é o lugar, não era um cemitério. Mas o que aconteceu quando foram remover… Então dentro, ainda tinha algum corpo, algum resquício, ele se transformou em pó. Então assim, isso se perdeu. A gente tem aqui nesse espaço, vamos até a década de 80, as pessoas moravam aqui, gente da comunidade, pessoas que trabalhavam na usina, então moravam aqui.
E aí o que acontece? Quando o pessoal depois veio e viu que isso não tava: “mas cadê aquele ali?’ Porque termina que era até um ponto de curiosidade que as pessoas queriam vir para ver essa urna, porque ela era acorrentada. A história da corrente é porque dizia que aquele coronel ali era tão brabo, tão brabo, que o pessoal acorrentou com medo dele sair de dentro. E ficou um mito”.
Josi Marinho – Realmente são muitas histórias. Me veio outra curiosidade que ouvi falar por aí. É verdade que Joaquim da Silva Rabelo, conhecido com Frei Caneca, escritor clérico católico, de origem de família pobre do Recife, teve ligação com esse território aqui?
Cris Xavier – Frei Caneca foi um líder religioso e político brasileiro do século 19. Ele participou ativamente da Revolução Pernambucana de 1817, defendendo ideias republicanas e liberais. Pernambuco lutava para se libertar de Portugal e implantar um governo republicano. Eles tiveram êxito por um tempo, mas depois o território foi retomado por Portugal. Frei Caneca foi um frade franciscano que usava um manto de tecido marrom com capuz. Tinha barba e cabelos escuros e costumava usar óculos. Ele tinha uma presença séria, rigorosa, mas também solene. Era conhecido por sua eloquência e convicções políticas e religiosas fortes.
Joana D’arck Ribeiro – “Frei Caneca ele, Líder do movimento libertário, que não começou em 1824 na Confederação do Equador, começou nas revoluções de antes. Desde 1817. Na 24, foi que ele se afirmou enquanto o líder revolucionário. E aí foi que aconteceu, quando ele começou a perder forças, na capital, ele começou a vir para o interior em busca de apoios. E esse apoio não era na mata sul, era justamente na Mata Norte. Isso existe um livro chamado itinerário de Frei Caneca, que é o que ele escrevia no seu diário. Isso tem uma publicação que conta essa história. Ele chegou em Goiana, na época Condado, o nome era Goianinha. Então tem essa passagem de lá, tem a passagem até chegar aqui”.
“Então as pessoas nem sequer sabe disso, nem falam, nem mencionam que Frei Caneca também teve por lá. Porque aqui, fala muito que foi aqui, porque aqui ainda existe né?”.
“Então Frei Caneca teve aqui e realizou o que a gente chama da última reunião. Eh, acho que foi setembro de 1824. Ele conseguiu aqui reunir várias pessoas onde eles iam definir aqui se esse movimento da Confederação do Equador, se ele iria continuar ou se ele iria finalizar diante os apoios”.
Josi Marinho – Mais uma vez o Engenho Poço Comprido sendo palco da história e desse movimento libertário liderado por Frei Caneca, que foi executado a tiros por militares, em 1825, quando tinha 46 anos. O episódio aconteceu no muro do Forte das Cinco Pontas, onde atualmente está instalado um museu, no Recife. Frei Caneca deixou uma história de luta pela independência e liberdade do Brasil e ideias progressistas. Em homenagem, um auditório aqui no engenho recebeu o nome de Frei Caneca.
Josi Marinho – Ouvindo você falar … Fico imaginando como era a vida nesse espaço… Eu também imagino o quanto essas paredes resistiram. Você fala muito de uma obra de restauração. Como isso aconteceu?
Joana D’arck Ribeiro – “A gente tem assim aqui algumas fotografias, da época do que foi restaurado. Anos 2000 essa última restauração. Mas ele também já teve algumas intervenções na década de 50, década de 60. Isso foi feito na época pelo Iphan. Então sempre eles fazem esse trabalho para você reconhecer o que tem ali. Então o que a gente sabe é isso, essa parte superior, ela é realmente de taipa. É intacta, digamos assim. Mas porque a localização permite. Ou seja, você tá livre de umidade. Quanto mais umidade, de fato, isso impacta na construção. É a questão de um detalhe. Para a gente pintar aqui, isso aqui vocês vêem é cal. Não é mais bonita a gente pintar com aquela tinta acrílica? Não, porque à cal é justamente uma espécie de tinta que vai ajudar na conservação. Porque a parede precisa respirar”.
“A nossa região, Pernambuco, é muito úmida também, sobretudo aqui na Zona da Mata. Então tudo isso interfere. E aqui a gente tá nesse pavimento superior. Na restauração, o que é que aconteceu? Um restauro se aproveita o que se dá para aproveitar, e o que não dá você pode substituir por elementos bem parecidos. Por exemplo, aqui vai ser madeiras das antigas ainda, originais, e madeiras que são novas, então dá para ver. Porque não tem como você deixar também uma que tá completamente deteriorada,. Como é que as pessoas vão transitar, sobretudo no assoalho?”
Josi Marinho – E que madeiras são essas?
Joana D’arck Ribeiro – “É sempre madeira de lei. Que é o que a gente mais tinha na região aqui da Mata. Isso a gente tá falando da do piso, mas na coberta precisou mudar muita coisa. Porque tava tudo bem estragado. Então aqui foi trabalhado com o imbiriba, que é completamente da Mata Atlântica. E esses caibros, são cabos de eucalipto tonalizado. Claro que na época não era usado dessa forma, mas esses passaram por esse processo, justamente para impedir a ação dos fungicidas. Porque aqui ó tem formiga, fungo, é um veneno pra gente. Cupim nem se fala… são grandes ameaçadores aqui, uma construção como essa. Então todo o telhado original que deu para aproveitar foi aproveitado e o que não deu para ser aproveitado, então foi encomendado, confeccionado telhas no formato mais parecidos”.
Josi Marinho – Quanto tempo durou todo esse trabalho?
Josi Marinho – “Então, foram aí uns três anos de restauração da primeira etapa, que ele chamava essa parte aqui da casa, da Capela. Os Altares da Capela, por exemplo, foram feitos pelo mesmo pessoal, mesmos restauradores que fizeram Pelourinho. Na época foi um trabalho muito minucioso que realmente demanda tempo. A segunda parte eles fizeram em 2006”.
Josi Marinho – Devido a toda história esse engenho foi transformado em museu. O Museu Comunitário Poço Comprido. Como é feita a manutenção e o custeio desse espaço?
Joana D’arck Ribeiro – “É muito desafiador digamos assim, a gente manter isso aqui. A gente tá nesse espaço que a gente sabe e fala sem nenhum problema, que ele poderia estar muito melhor cuidado. Poderia estar com a manutenção muito melhor. A gente não consegue porque de fato a gente não tem esse recurso”.
“A gente tem pessoas na associação que gostam, que se apropriaram disso aqui, que têm essa memória afetiva. A gente se dedica muito aqui. Então tem as pessoas que não moram aqui, como eu não moro aqui no engenho, e tem as pessoas também que moram aqui. Então são as pessoas que zelam por isso aqui”.
“O pessoal que faz artesanato, que são as meninas que também limpam. Tem o que é mediador, mas que também pode escrever projeto. A gente fica nessa luta imensa e diária, digamos assim, de procurar forma de captar recursos. No nosso sistema Brasil, o que é mais fácil digamos assim, é quando a gente tem essa política aí da valorização da cultura através de editais”.
Josi Marinho – Em 2008 o local passou a ser considerado Ponto de Cultura através de um edital firmado entre a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – Fundarpe – e o Ministério da Cultura.
Joana D’arck Ribeiro – “Isso é muito importante porque em 2008 nós conseguimos a chancela de ser ponto de cultura. E aí a gente recebeu aquela grana, a gente botou isso aqui para funcionar, com cursos, com festas, que eu sempre digo que é o mais forte que a gente tem aqui. É fomentar a cultura local através de formação e através de eventos”.
Josi Marinho – Como vimos, as terras onde ficam o Museu Poço Comprido pertencem ao Engenho Laranjeiras. A área histórica é gerida pela Associação dos Filhos e Amigos de Vicência – AFAV. A manutenção também é responsabilidade da associação. O museu tem a missão de atuar na preservação do Patrimônio Imaterial e Patrimônio Material edificado do Estado de Pernambuco. É possível fazer locação do espaço para realização de eventos como casamentos, aniversários, confraternizações, seminários, aulas espetáculos e programações artístico-culturais. O local também recebe visitações.
Joana D’arck Ribeiro – “Estamos aqui à disposição. A gente tem nossas redes sociais, a gente usa mais o Instagram, que é Museu Poço Comprido, e a gente sempre responde lá. Ela tem um contato de pré-agenda. As pessoas podem vir para cá. Precisa de agendamento, justamente porque a gente não tem condições de ter pessoas aqui todos os dias sempre. Então pré-agendamento ele funciona justamente para isso, para que a gente se prepare, tenha um guia mediador que vai contar toda essa história que eu falei aqui e mais coisas. Tem escola que vem 20 alunos, um mediador resolve. Mas se vem 100, a gente tem que colocar quatro, cinco mediadores”.
Josi Marinho – Todas as informações sobre as visitas estão no perfil do Instagram @museupococomprido (poço sem o ç) ou pelo Whatsapp DDD 81 9 8195.8603
Josi Marinho – Joana D’arck muito obrigada por essa aula de história, por esse bate-papo incrível e por essa visita guiada as terras desse engenho.
Joana D’arck Ribeiro – “Quero também agradecer muito. É bom ter gente da nossa terrinha, do nosso espaço, nesse papel que você faz muito bem, que é de divulgar isso aqui. Mas uma boa divulgação. As vezes a gente vai entrar no Google, bota uma cidade é só aparece um monte de coisa ruim, de índice ruins. Quando é uma cidade, eu tô falando uma cidade, que ela tem um ponto de cultura, que ela tem um museu, que ela tem alguma organização que trabalha, isso é o que aparece mais … Então isso mostra realmente o poder da divulgação. Pra gente é sempre é muito bom, e a gente tá sempre à disposição. Agradeço demais em poder estar contando também a nossa história, para que tanta gente possa conhecer, né? Que Tem sim as coisas boas, importantes e maravilhosas”.
ENCERRAMENTO
Josi Marinho – E assim a gente termina o quarto episódio da temporada especial do Podcast Nossa História, Nossa Memória sobre os Patrimônios Materiais e Imateriais da Zona da Mata dá uma passada nas nossas redes sociais @podcastnossahistoria no Instagram.
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– Estamos em todas as plataformas de áudio com episódios novos e temporadas antigas.
– Todo nosso material se encontra no site nossahistorianossamemoria.blog.br
– Na equipe deste podcast João Paulo Rosa com a trilha sonora.
– O jornalista Gedson Pontes com roteiro e montagem.
– A produtora cultural Crislaine Xavier com a audiodescrição.
– Alisson Santos com a gravação.
– Videomaker: Julio Melo.
– Designer: Murilo Silva.
– Web designer: Saulo Ferreira
– Apresentação e produção da jornalista Josi Marinho.
– No nosso canal do Youtube, nossos episódios estão traduzidos em Libras – Língua Brasileira de Sinais pela tradutora Ewelyn Xavier
– Coordenação geral e reportagem do jornalista, documentarista e produtor cultural, Salatiel Cícero.
A gente te espera no próximo episódio !!!!