Nossa história, Nossa memória

O Podcast é um projeto documental, que usa técnicas de linguagem radiofônica, internet e de jornalismo cultural, biográfico e literário, con na proteção, preservação, conservação e salvaguarda dos Patrimônios Culturais Materiais e Imateriais da região da Zona da Mata de Pernambuco, em suas diversas linguagens

Roteiro Episódio 1

Jennifer Maria abre temporada especial do Podcast Nossa História, Nossa Memória

Primeiro episódio apresenta a jovem mamulengueira de Glória do Goitá, herdeira de uma tradição marcada pela resistência das mulheres na cultura popular

O Podcast Nossa História, Nossa Memória estreia uma nova temporada dedicada às mulheres que fazem da cultura popular, da região da Mata Norte de Pernambuco, um dos importantes territórios culturais do Estado, que abriga centenas de tradições afro-brasileiras. A série, produzida com incentivo do Funcultura, Fundarpe e Governo de Pernambuco, abre espaço para vozes femininas que mantêm vivas essas expressões e inspiram novas gerações.

No episódio de abertura, a jornalista e produtora cultural Josi Marinho conduz uma conversa com Jennifer Maria, de apenas 20 anos, contramestra do grupo Mamulengo Flor do Mulungu e presidente da Associação Cultural dos Mamulengueiros e Artesãos de Glória do Goitá. Herdeira de uma família marcada pelo teatro de bonecos, Jennifer cresceu dentro do Museu do Mamulengo, acompanhando de perto a trajetória da mãe, Mestra Titinha, e do avô, Mestre Zé Lopes.

Entre lembranças de infância, a jovem fala sobre como o mamulengo chegou para ela como brincadeira e se transformou em missão de vida. Jennifer destaca ainda o papel das mulheres dentro dessa tradição, antes restrita aos homens, e as mudanças trazidas pelo grupo Flor do Mulungu, formado só por mulheres, que ampliou a participação feminina e deu novos sentidos às histórias contadas pelos bonecos.

O episódio mostra como a cultura popular se reinventa ao olhar das novas gerações, sem perder a essência. Para Jennifer, que define o mamulengo em uma palavra – “resistência” – a brincadeira é também uma forma de educar, emocionar e transformar.

Acompanhe, abaixo, a íntegra da entrevista. Além de ouvir e assistir ao episódio, você também poderá ler a conversa completa.

Apresentadora (Josi Marinho):

Olá! Esse é o Nossa História, Nossa Memória. Um projeto incentivado pelo FUNCULTURA, FUNDARP e Governo do Estado de Pernambuco. Um podcast que escuta o tempo, as pessoas e os territórios. E nessa temporada entramos nos espaços onde a cultura é vivida, criada e reinventada todos os dias por mulheres incríveis. 

Eu sou Josi Marinho, jornalista e produtora cultural natural de Carpina, na zona da Mata de Pernambuco. Trabalho há mais de 10 anos contando histórias do nosso povo, seja no rádio, na escrita e agora aqui no nosso podcast. Acredito que preservar a memória é também cuidar do nosso futuro. 

Hoje, o Nossa História, Nossa Memória volta os olhos e os ouvidos para a Glória do Goitá, terra onde o riso, a crítica e a sabedoria popular ganham forma pelas mãos de quem move o mamulengo. 

O mamulengo é um tipo de teatro popular de bonecos no Nordeste, especialmente forte aqui em Pernambuco. Os bonecos são manipulados com as mãos por trás de um pequeno palco e ganham vida com muita brincadeira, música, improviso e crítica social. 

No mamulengo, os bonecos falam como a gente, brigam, dançam, rezam, sonham e dizem verdades que, às vezes, só boneco tem coragem de dizer. Entre tantos bonecos e histórias, encontramos Jennifer Maria, jovem firme e herdeira de uma linguagem que fez do teatro popular um instrumento de memória, resistência e alegria. 

Filha da Mestra Titinha, uma das primeiras mulheres a ocupar o palco com boneco na mão, e do Mestre Bel, neta do eterno Mestre Zé Lopes, Jennifer cresceu dentro do Museu do Mamulengo. 

Importante dizer que a Mestra Titinha, mãe de Jennifer, é uma das entrevistadas do Nossa História, Nossa Memória, também aqui nessa temporada. 

A infância de Jennifer no museu foi feita de pano, madeira e emoção. E foi ali também que ela compreendeu que sua missão era dar continuidade a essa tradição viva. 

Hoje, aos 20 anos, ela já é contramestra do grupo Mamulengo Flor do Mulungu e preside a Associação Cultural dos Mamulengueiros e Artesãos da região. 

Com sensibilidade, técnica e coragem, Jennifer renova o que aprendeu desde pequena, que boneco fala, ensina e transforma. 

Jennifer, que alegria estar aqui em Glória do Goitá, receber você nesse espaço tão significativo para o mamulengo. 

Nossa alegria é tê-la como convidada nessa temporada especial. 

Inicialmente, eu gostaria de saber: como você se sente participando dessa brincadeira tão importante que é o mamulengo?

Entrevistada (Jennifer Maria):
Para mim é muito significativo. O mamulengo, eu acho uma cultura belíssima. Eu fui criada cultivando um grande amor pela cultura popular. Então, para mim, significa que eu estou mantendo uma cultura que faz parte da história da minha família. Que o meu pai se mantém, minha mãe se mantém através dessa cultura. Então é muito gratificante conseguir ser uma das mantenedoras que salvaguarda o mamulengo.

Apresentadora (Josi Marinho):
E como foi crescer no Museu do Mamulengo?

Entrevistada (Jennifer Maria):
Crescer no Museu do Mamulengo, eu acredito que foi importante para que hoje eu mantenha o mesmo encanto pelo mamulengo que eu tinha quando era criança. Eu acho que crescer em meio a essa cultura fez com que eu me aproximasse dela sem precisar que alguém me instigasse. Foi uma coisa natural. Eu que quis me aproximar. Eu que tive o interesse de também participar, o que é uma coisa que pode se perder, porque muitos filhos não se interessam, principalmente nessa nova geração da tecnologia. Mas, mesmo assim, tanto eu quanto meu irmão tivemos esse interesse. Crescer aqui manteve o encanto que fez a gente voltar e participar.

Apresentadora (Josi Marinho):
Que lembrança você tem das primeiras vezes no museu, com sua mãe, seu pai e seu avô?

Entrevistada (Jennifer Maria):
Apesar de ser nova, não tenho tantas lembranças de estar no museu com meu avô. Uma das minhas primeiras memórias é em casa, ajudando minha mãe a lixar bonecos para encomenda. No museu, lembro de vir muito quando não estávamos estudando. Minha mãe trazia a gente, passávamos o dia brincando, correndo. Também lembro de sair da escola e vir para cá. Era o espaço de trabalho dos meus pais, então a gente estava junto.

Apresentadora (Josi Marinho):
Então a arte do mamulengo chegou para você como uma brincadeira?

Entrevistada (Jennifer Maria):
A arte do mamulengo chegou como uma brincadeira para mim. Primeiro me encantei pelas apresentações. Eu era encantada — e ainda sou — principalmente pelas passagens da morte e do diabo. Quanto mais assustador o boneco, mais bonito eu achava. Mas, desde cedo, eu e meus irmãos tínhamos consciência de que aquilo era também o sustento da família. Para nós era brincadeira; para meus pais, era cultura e trabalho.

Apresentadora (Josi Marinho):
O mamulengo sempre foi um espaço ocupado por homens. Como é, para você, sendo mulher, ocupar esse espaço hoje?

Entrevistada (Jennifer Maria):
Hoje minha geração tem mais facilidade porque mulheres como a Mestra Jaci e minha mãe, Mestra Titinha, já quebraram estigmas. O grupo Flor do Mulungu, só de mulheres, foi essencial: antes não havia mestras dentro da barraca nem uma banca só de músicas mulheres. A partir dele, abriu-se caminho para mais mulheres no mamulengo.

Apresentadora (Josi Marinho):
Existe algo que mudou com o surgimento do Flor do Mulungu?

Entrevistada (Jennifer Maria):
O Flor do Mulungu valoriza as personagens femininas. Minha mãe trabalha mudanças nas histórias, como inverter papéis de gênero: antes a mulher só cuidava de casa, agora o marido cuida para que ela estude. São pequenas mudanças que trazem novas temáticas e renovam o mamulengo.

Apresentadora (Josi Marinho):
E como você percebe a reação das mulheres que acompanham as apresentações?

Entrevistada (Jennifer Maria):
Antigamente o público era mais masculino. Hoje é diverso, com muitas crianças, especialmente meninas. Elas adoram, pedem para voltar às oficinas, se inscrever de novo. Isso mostra que o mamulengo acolhe e forma novas gerações.

Apresentadora (Josi Marinho):
O que você acha que o mamulengo transmite para quem está assistindo?

Entrevistada (Jennifer Maria):
Depende da idade. Para crianças, é encanto, como se o boneco criasse vida. Para jovens e adultos, são as piadas, a diversão e também mensagens educativas. Antigamente havia até apostas em brigas de bonecos, hoje isso foi lapidado: a cultura se mantém sem violência.

Apresentadora (Josi Marinho):
Você já consegue ver meninas mais jovens participando da brincadeira?

Entrevistada (Jennifer Maria):
Sim, vejo muitas nas oficinas. Pensamos até em um novo grupo infantil. Hoje, elas veem que é possível serem mestras, estarem na barraca, criarem bonecos. Essa barreira já foi quebrada.

Apresentadora (Josi Marinho):
Para você, o que significa ser filha da Mestra Titinha?

Entrevistada (Jennifer Maria):
É uma responsabilidade grande. Minha mãe é o pilar da instituição. Além de mestra, foi presidente, administra, ensina. Muitos mestres não têm ensino formal, e ela os ajuda a manter a tradição. Não tem como eu superar isso, mas tenho muito orgulho dela, principalmente por viver do que gosta.

Apresentadora (Josi Marinho):
Na apresentação você é contramestra. Explica para quem nos ouve qual é essa função.

Entrevistada (Jennifer Maria):
A contramestra auxilia dentro da barraca: entrega bonecos, interpreta personagens, canta quando necessário. Eu interpreto a Catirina, por exemplo, mas continuo apoiando a mestra em todas as ações.

Apresentadora (Josi Marinho):
O mamulengo tem uma grande variedade de personagens. No Flor do Mulungu predominam personagens mulheres?

Entrevistada (Jennifer Maria):
Sim, há uma presença forte de personagens femininas, pela preferência da minha mãe. Ela gosta de trabalhar personagens como a Catirina, Quitéria e Xoxa. São figuras que aparecem com mais destaque em suas apresentações.

Apresentadora (Josi Marinho):
Você tem uma apresentação especial, aquela que mais marcou?

Entrevistada (Jennifer Maria):
A apresentação após a morte da minha irmã. Eu vi minha mãe chorar dentro da barraca, especialmente na parte do caboclo de lança, que era o preferido da minha irmã. Foi a mais emocionante para mim.

Apresentadora (Josi Marinho):
Imagino como é significativo vocês trabalharem juntas hoje, uma apoiando a outra.

Entrevistada (Jennifer Maria):
Sim, foi muito forte. O museu também serviu como espaço de cura para minha mãe. Ela é uma mulher muito forte.

Apresentadora (Josi Marinho):
Jennifer, falando um pouco mais de você: quais suas expectativas e projetos para o futuro?

Entrevistada (Jennifer Maria):
Quero que mais mulheres ocupem a cultura popular. Que mais jovens tenham interesse em manter tradições como o mamulengo. É importante exaltar as mestras e garantir que a cultura siga viva.

Apresentadora (Josi Marinho):
Jennifer Maria é dessas jovens que carregam o passado sem peso, mas com propósito. Suas mãos moldam o boneco com ternura e moldam o futuro da cultura popular. Entre falas e gestos herdados, ela prova que tradição não é coisa velha, é raiz viva. Para encerrar, Jennifer, se você pudesse resumir em uma palavra o que significa para você a cultura popular e o mamulengo, qual seria?

Entrevistada (Jennifer Maria):
Resistência.

Apresentadora (Josi Marinho):
Obrigado, Jennifer, por sua participação. Esse é o Nossa História, Nossa Memória, uma produção que escuta as mulheres que fazem a cultura acontecer.

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