Neide do Cordel: poesia e ensino no coração da Mata Norte
Professora e cordelista de Goiana transforma o saber popular em patrimônio literário, unindo educação, memória e resistência cultural
No terceiro episódio do podcast Nossa História, Nossa Memória, a convidada é Rosineide Orlando da Silva, conhecida como Neide do Cordel. Professora de matemática e cordelista, ela transformou a sala de aula em espaço de poesia e encantamento, usando a literatura popular como ferramenta para aproximar os alunos de conteúdos muitas vezes considerados difíceis.
Herança do avô cantador de viola, que lhe ensinou o amor pelos versos improvisados, a paixão pela cultura popular levou Neide a escrever cordéis sobre a cidade de Goiana, sobre o cotidiano das feiras livres e até sobre fórmulas matemáticas. Sua produção alia ensino e tradição, revelando como o cordel pode dialogar com temas contemporâneos, da educação ao combate à violência contra a mulher.
Integrante do grupo Terça com Poesia, participante da Fenearte e membro da Academia de Artes e Letras de Goiana, Neide é hoje uma referência feminina ligada ao patrimônio literário da Mata Norte, reconhecida por unir a oralidade, a escrita e a memória cultural em versos que atravessam gerações.
Acompanhe, abaixo, a íntegra da entrevista. Além de ouvir e assistir ao episódio, você também pode ler a conversa completa.
Apresentadora Josi Marinho:
Apresento para vocês, com grande satisfação, na cidade de Goiana, o podcast em ação: Nossa História, Nossa Memória. A cultura é nossa paixão. E é com muita poesia que iniciamos o nosso episódio.
Esse é o Nossa História, Nossa Memória, um podcast com incentivo do Funcultura e do Governo do Estado de Pernambuco.
A gente escuta com calma e eterniza as palavras das vozes femininas que moldam a cultura do nosso tempo. Eu sou a jornalista Josi Marinho, da cidade de Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernambuco. Há mais de 10 anos conto histórias do nosso povo no rádio, nas palavras escritas e, agora, no aconchego desse podcast.
Hoje a nossa história tem cheiro de feira, som de viola e métrica de cordel. Chegamos a Goiana, cidade do norte de Pernambuco, para conversar com uma mulher de muitos papéis: sala de aula e papel de feira, poesia e vocação. Estamos falando de Rosineide Orlando da Silva, mais conhecida como Neide do Cordel, professora de matemática da Escola Quarto Centenário, mas que não tem a sala de aula como único palco.
Apresentadora Josi Marinho:
Neide, que alegria estar aqui em Goiana e te receber nessa temporada tão especial do nosso podcast. Inicialmente, eu queria que você falasse que lugar é esse tão aconchegante que nos recebe aqui no coração de Goiana, um espaço que respira literatura, cultura e música.
Entrevistada Neide do Cordel:
Estamos no ateliê de Valcíra Santiago. É um espaço onde respiramos cultura, com vários eventos. Aqui acontecem os saraus do “Terça com Poesia”, grupo do qual participo. Escolhi esse cantinho para a nossa conversa.
Apresentadora Josi Marinho:
E por ser cordelista, gostaria que você fizesse sua apresentação biográfica também em poesia.
Entrevistada Neide do Cordel:
Sou Rosineide Orlando, professora cordelista.
Tenho orgulho de ser goianense idealista.
Sou do Terça com Poesia, do IAGO e da Academia.
Ser poeta é uma conquista.
Sou mulher, sou brasileira, sou negra, sou nordestina,
sou esperta e valente, já deixei de ser menina.
Trabalho para meu sustento, seu machismo eu não aguento,
vou mudar a minha sina.
Apresentadora Josi Marinho:
Já observei que, desde a infância, a literatura e o cordel estão no seu sangue. Você aprendeu com seu avô, através da cantoria de viola, a amar a cultura popular. Conta pra gente como foi sua infância acompanhando seu avô e quais memórias afetivas guarda dessa época.
Entrevistada Neide do Cordel:
Meu avô tinha uma paixão muito grande por versos de improviso. Ele recitava para a gente, fazia aqueles versos… era muito especial. Quando não temos mais a presença física, fica esse gostinho de saudade.
Na adolescência, comecei a escrever poesias. Não eram cordéis ainda, mas poemas de sentimentos intensos. Guardo até hoje esses textos em caderninhos.
Apresentadora Josi Marinho:
Esses textos eram só seus ou você já mostrava para alguém?
Entrevistada Neide do Cordel:
Eram só meus. Às vezes compartilhava com amigas, escrevia poesias para elas dependendo da situação. Mas nunca publicava.
Apresentadora Josi Marinho:
E quando foi que você entendeu que poderia publicar seu trabalho?
Entrevistada Neide do Cordel:
Foi quando conheci o cordelista Edivaldo de Lima, aqui de Goiana. Ele me mostrou seus trabalhos e começamos juntos a levar cordel para escolas e feiras, fazendo oficinas. Meu primeiro cordel foi sobre Goiana, que recitava na Trezena de Santo Antônio.
Apresentadora Josi Marinho:
Você também conseguiu unir sua profissão de professora de matemática com o cordel, não é?
Entrevistada Neide do Cordel:
Sim. Criei o “Cordel da Matemática” e publiquei, junto com uma amiga, um artigo no Encontro de Pesquisas Educacionais de Pernambuco (EPEP). Uso o cordel para ensinar ângulos, números inteiros… Assim, os alunos aprendem de forma lúdica.
(recita o cordel da matemática)
Apresentadora Josi Marinho:
E como os alunos recebem?
Entrevistada Neide do Cordel:
Com muita alegria. Matemática assusta, mas com o cordel fica fácil e divertido. Também já trabalhei com temas como trânsito, bullying e cidadania. Até crianças pequenas conseguem absorver.
Apresentadora Josi Marinho:
E tem o cordel da feira, não é?
Entrevistada Neide do Cordel:
Sim, é um dos mais conhecidos.
(recita o cordel da feira de Goiana)
Apresentadora Josi Marinho:
Em setembro de 2025 você se tornou membro da Academia de Artes e Letras de Goiana. Como recebeu essa notícia?
Entrevistada Neide do Cordel:
Foi muito especial. Pesquisei sobre José Albino Pimentel, patrono da cadeira que ocupo. Ele trouxe progresso para Goiana. Fazer parte da academia é uma vitória.
Apresentadora Josi Marinho:
Qual a importância da Academia dar espaço para vozes femininas?
Entrevistada Neide do Cordel:
É fundamental. Nossa presidente é uma mulher, Rosem Viegas, e ela faz todas se sentirem em casa. Há muitas mulheres produzindo na Mata Norte, mas sem espaço para publicar.
Apresentadora Josi Marinho:
Que mensagem você deixa para as mulheres que ainda não publicam?
Entrevistada Neide do Cordel:
Que deem o primeiro passo. Escrevam o dia a dia, os sentimentos. Logo estarão produzindo obras. Tenho também um cordel em defesa da mulher, que fala sobre machismo, violência e a Lei Maria da Penha.
(recita o cordel em defesa da mulher)
Apresentadora Josi Marinho:
Você também faz parte do grupo Terça com Poesia. Qual a importância desse espaço?
Entrevistada Neide do Cordel:
É uma família. Fazemos saraus, eventos temáticos, encontros na biblioteca e na praça. O grupo é aberto a poetas, músicos e artistas em geral.
Apresentadora Josi Marinho:
Você também se dedica ao artesanato.
Entrevistada Neide do Cordel:
Sim. Trabalho com crochê, bordado e bijuterias. Participo da Fenearte. Gosto de unir poesia e artesanato.
Apresentadora Josi Marinho:
E sobre os livros?
Entrevistada Neide do Cordel:
Participei de concursos, publiquei poemas como O Nordestino é um Povo Forte, depois transformado em cordel. Também publiquei coletâneas com o Terça com Poesia, homenageando os 150 anos do Instituto Histórico de Goiana.
Apresentadora Josi Marinho:
Para encerrar, em uma palavra: o que significa cultura popular para você?
Entrevistada Neide do Cordel:
Ancestralidade.
Apresentadora Josi Marinho:
Muito obrigada, Neide. Foi uma alegria enorme estar com você.
Entrevistada Neide do Cordel:
Eu que agradeço. Foi maravilhoso participar.


