“A primeira peça aos 7 anos foi o fio que teceu minha história”
Entre memórias, sonhos e desafios, Ninha do Crochê fez do artesanato um caminho de vida e identidade cultural
No quarto episódio do podcast Nossa História, Nossa Memória, a convidada é Maria do Amparo Conceição da Silva, conhecida como Ninha do Crochê. Natural de Macaparana, cidade reconhecida como a capital estadual do crochê, ela iniciou na arte aos sete anos de idade e, desde então, transformou fios e agulhas em instrumentos de luta, identidade e conquistas.
Das primeiras peças confeccionadas ainda na infância à produção de vestidos de noiva, roupas, acessórios e utilitários, Ninha consolidou seu nome como referência do artesanato pernambucano. Sua trajetória também é marcada pelo empreendedorismo, pois foi por meio do crochê que realizou sonhos, como a construção da casa para sua mãe, além de inspirar outras mulheres da região a seguirem pelo mesmo caminho.
Com trabalhos que já ultrapassaram fronteiras e chegaram ao exterior, a artesã leva consigo o legado de uma tradição que costura passado e presente, reafirmando o crochê como parte fundamental do patrimônio cultural e artesanal da Mata Norte de Pernambuco.
Acompanhe, abaixo, a íntegra da entrevista. Além de ouvir e assistir ao episódio, você também pode ler a conversa completa.
Apresentadora Josi Marinho:
Esse é o Nossa História, Nossa Memória. Um podcast que escuta o tempo, as pessoas e os caminhos que elas percorrem. O nosso podcast tem o incentivo do Funcultura, Fundarpe e Governo do Estado de Pernambuco. Eu sou Josi Marinho, jornalista, produtora cultural e há mais de 10 anos conto histórias do nosso povo nas ondas do rádio, nas palavras escritas e agora no aconchego desse podcast.
Hoje a nossa conversa vai se entrelaçar com fios de crochê, arte e resistência. Vamos conhecer a trajetória de uma mulher que, com suas mãos e talento, transformou a arte do crochê em um caminho de luta, identidade e conquista.
Natural de Macaparana, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, Maria do Amparo Conceição da Silva, conhecida como Ninha do Crochê, é um ícone do artesanato pernambucano. Uma mulher que costura suas histórias e sonhos com a mesma habilidade que executa seus trabalhos. Macaparana é reconhecida como a capital estadual do crochê e foi nesse cenário que Ninha cresceu, rodeada por fios, agulhas e o ritmo lento, mas profundo, dessa arte que conecta passado e presente.
Ninha, é um prazer te receber. Eu já quero saber: que peça foi essa que você fez aos 7 anos de idade? E nesse período você já imaginaria como essa peça iria transformar a sua vida e sua trajetória no crochê?
Entrevistada Ninha do Crochê:
É um prazer muito grande estar aqui com você e com toda a equipe. Eu nunca pensei que uma primeira peça que fiz pudesse me trazer tantas coisas boas na vida. Nunca imaginei chegar onde cheguei. Com 7 anos de idade, uma criança, fiz minha primeira peça: uma colcha de crochê de solteiro. Até hoje tenho essa peça guardada. Foi uma conquista muito grande. Depois disso, fiz passadeiras, blusas, shorts, várias peças em crochê. Se a gente for falar, passaria o dia todo só falando de crochê.
Apresentadora Josi Marinho:
Mas aos 7 anos, o que foi que te chamou atenção nessa arte? Quem foi que despertou essa curiosidade em você?
Entrevistada Ninha do Crochê:
Foi uma colega minha. Criança é curiosa, né? Toda vez que ela passava da minha casa para pegar água, estava fazendo crochê. Perguntei o que era, ela respondeu: “isso é crochê”. Pedi que me ensinasse e ela fez uma agulha de pau para mim, comprou o primeiro fio e começou a me ensinar. Aprendi a fazer trança, ponto baixo, ponto alto e fui desenvolvendo.
Apresentadora Josi Marinho:
E a sua família, como reagiu? Teve apoio?
Entrevistada Ninha do Crochê:
Em casa só eu fazia crochê. Minha mãe e meu pai sempre me apoiaram. Minha irmã não fazia porque foi criada pela minha avó. Mas eu segui no crochê até hoje.
Apresentadora Josi Marinho:
Você é natural de Macaparana, a capital estadual do crochê. Como esse título influencia sua produção?
Entrevistada Ninha do Crochê:
Influencia muito. Participo de feiras e eventos sempre que tem festa da padroeira ou outra comemoração. Somos convidados para expor nossas peças e recebemos muito incentivo.
Apresentadora Josi Marinho:
Estamos rodeadas de muitas peças lindas suas. Mostra um pouco para a gente.
Entrevistada Ninha do Crochê:
Aqui está uma blusa feita com linha Anne, toda trabalhada no ponto alto e correntinha. Esse aqui é o ponto alto tombado. Essa parte é ponto cheio separado por uma corrente. A base do crochê é a correntinha. A partir dela, fazemos quadrados, pontos cheios, leques, pipoca.
Apresentadora Josi Marinho:
Você trouxe também uma convidada especial, sua sobrinha, para mostrar uma das peças no corpo.
Entrevistada Ninha do Crochê:
Sim, essa é minha sobrinha Ana Cláudia. O vestido que ela veste é feito em ponto cheio e ponto leque, com aplicações. Ele é todo trabalhado em detalhes e barrado.
Apresentadora Josi Marinho:
Lindo vestido, parabéns. Mas me diga: o crochê, além de arte, virou também fonte de renda. Como foi transformar algo que começou como curiosidade em trabalho?
Entrevistada Ninha do Crochê:
Foi um grande desafio, mas graças a Deus consegui. A maior conquista foi construir uma casa para minha mãe com o dinheiro do crochê. Eu fazia peças para minha madrinha, ela me pagava e com esse dinheiro comprava material de construção. Também quebrei pedra, tirei areia no rio. Com a ajuda do meu filho, que na época tinha 8 anos, consegui realizar esse sonho. Foi emocionante ver minha mãe morando na casa nova.
Apresentadora Josi Marinho:
Inspirador! Outras mulheres também se inspiraram em você para seguir no crochê?
Entrevistada Ninha do Crochê:
Sim, muitas meninas de Macaparana trabalham com crochê. Algumas também já construíram casa ou compraram carro com essa arte. É uma inspiração para muita gente.
Apresentadora Josi Marinho:
E qual a peça mais desafiadora que você já fez?
Entrevistada Ninha do Crochê:
Um vestido de noiva, feito todo em crochê em apenas uma semana. Foi difícil, mas ficou maravilhoso.
Apresentadora Josi Marinho:
Suas peças já chegaram até fora do Brasil, não é?
Entrevistada Ninha do Crochê:
Sim, já vendi para os Estados Unidos. Uma cliente levou um vestido de crochê para um casamento. Ficou muito lindo.
Apresentadora Josi Marinho:
Você também participou de curtas-metragens que retratam sua trajetória. Como foi essa experiência?
Entrevistada Ninha do Crochê:
Foi emocionante. Poder contar minha história, desde os 7 anos até hoje, ver minha trajetória no audiovisual foi uma grande alegria.
Apresentadora Josi Marinho:
E para encerrar, Ninha, em uma palavra: o que é cultura para você?
Entrevistada Ninha do Crochê:
Cultura para mim é tudo na vida. Cultura é arte.
Apresentadora Josi Marinho:
Muito obrigada, Ninha. Sua história é inspiradora e é isso que buscamos nessa temporada: contar a biografia de mulheres que fazem a cultura acontecer na Mata Norte de Pernambuco.
Entrevistada Ninha do Crochê:
Eu que agradeço. Foi maravilhoso participar.


