O cemitério em questão está localizado na antiga fazenda Cavunga, no distrito de Siriji e envolve a história social da religião cristã católica em confronto com o que chamavam no começo do século XX sobre os evangélicos, os nova Seita. No final do século XIX as novas perspectivas de progresso e de civilização recaíram também nos credos religiosos, pois muitos católicos migram para a fé protestante influenciados pelo discurso de prosperidade e um paraíso promissor de casas de ouro e ruas de cristal. Mas para isso deveria renunciar a este mundo. Em Moganga, antigo nome de Siriji, esse movimento de renovação incidiu na formação de templos clandestinos em casas de famílias tradicionais no vale do Siriji, os Correia de Oliveira que estavam na região desde o século XVIII. Eloy Correia de Oliveira rachou com a família e criou condições para uma nova congregação, a Batista. Esse caso repercutiu no seio dos Correia e também influenciou outros cidadãos de cidades adjacentes migrarem para esse novo núcleo formado em casas comuns, ainda sem templo próprio.
Na primeira década do século passado os jornais davam notícias sobre os sucessíveis casos de agressão protagonizados pela onda de fanatismo levando praticantes dos “nova seita” a morte em casos de intolerância religiosa inflada por Celestino de Pedávoli e sua Liga Antiprotestante. Esse movimentos conservadores somados a ideias violentas alimentadas pelo fanatismo inflado por Celestino teve como consequência a criação de núcleos de combate ao protestantismo simbolicamente organizados nas unidades religiosas católicas. Divididos na vida também foram divididos na morte, no ato de morrer. Morrer envolve uma sequência simbólica de ritos para validar o corpo e o status desse morto, logo, se existe tamanho conflito que opõe as formas de crer os enterramentos também sofreram consequências na vila surgindo um espaço novo. No Sítio Cavunga, terra de Eloy Correia de Oliveira, foi construído um cemitério para esses novos sujeitos de fé. Os enterramentos que acontecem nesse novo espaço são todos ligados aos novos adeptos dessa religião cuja resistência havia culminado em mortes. Pelo livro de óbito da vila, a causa das mortes e os direcionamentos para o enterro no cemitério da Cavunga confirmam o tamanho das violências sociais existentes nos domínios da antiga Bom Jardim.
Nos anos 50 e 60 as tensões entre os segmentos do cristianismo haviam apaziguado ao modo que o cemitério da comunidade passou a receber enterramentos mistos sem distinção de credo, mas o bem cultural remanescente dos tempos de apartamento permaneceu. Passou a ser um cemitério particular (já era de outra família) da família Andrade Lima. Atualmente é um bem histórico esquecido e esvaziado de sentidos sem a conexão necessária como os conflitos oriundos de um tempo de negação e segregação entre as duas correntes religiosas.


