Nossa história, Nossa memória

O Podcast é um projeto documental, que usa técnicas de linguagem radiofônica, internet e de jornalismo cultural, biográfico e literário, con na proteção, preservação, conservação e salvaguarda dos Patrimônios Culturais Materiais e Imateriais da região da Zona da Mata de Pernambuco, em suas diversas linguagens

ONDE ESTÁ O PATRIMÔNIO AFRO PERNAMBUCANO?

Na escrita da história única, o passado parece ser igual para um grupo socialmente construído como marginalizado. Negros e indígenas apareciam pouco no cenário de protagonismo social da nossa memória. Pernambuco, que foi uma capitania muito rica e desenvolvida e depois tornou-se uma província de projeção naciona com suas lideranças e revoltas foi uma das que mais recebeu escravizados durante a vigência desse negócio que era a escravidão mercantil. 

Em outro momento já citei que a chegada desses escravizados não significava abandono das tradições e costumes africanos, tampouco abandono da fé e das estratégias de sobrevivência num regime que era desumano e pouco interessado em enxergar os pretos como sujeitos donos de suas próprias histórias. Muitos foram levados ao castigo para negar sua fé, seus batuques e suas inteligências numa agenda totalmente comprometida com a economia acima de qualquer expressão humanista. 

Entretanto é preciso desmontar a história única e enxergar as influências dos africanos na história de Pernambuco em contextos diversos e independentes. A história única não favorece a visibilidade da resistência do povo tido marginalizado. Ela apenas confunde as narrativas e diminui a importância dos outros fatos. 

Ampliar a visão para enxergar nossas heranças culturais, que são muitas, devemos fazer um exercício de compreensão sobre os lugares que estamos inseridos. Na zona da Mata a cidade de Nazaré, Tracunhaém são duas amostras da força dos povos africanos na diáspora. Isso porque essas duas cidades somadas a outras da região foram uma espécie de recôncavo. Maracatus, Cavalos Marinhos, Olarias, Ateliês de pintura. Então o que a gente pode recortar aqui são pontos estratégicos onde podemos contar a história da gente acessando esses lugares. Primeiro que destaco aqui é o Cambinda Brasileira em Nazaré, o grupo tem mais de 100 anos tem hoje (2026) 108 anos de formação (1918), mas faz parte de uma memória ancestral que resistiu ao tempo e as imposições coloniais. O Cambinda está no Engenho Cumbe e foi reconhecido como Patrimônio Vivo pela sua trajetória. O segundo lugar é a Chã de Camará onde outro Maracatu já passa dos 50 anos, o Estrela Brilhante. Interessante perceber que esses dois pontos de cultura cresceram em lugares de repressão e domínio colonial. Andalaquituche criou o Museu das Tradições do Cavalo Marinho, criado em meio a Pandemia, inaugurado em 2020 e agrega os saberes da população negra da Mata Norte e lá você encontra a memória dos brincantes em respeitosa composição de fotografias e objetos. O Museu fica em Aliança.

Os quilombos de Vicência e de Goiana também são lugares que celebram a memória da população com suas respectivas lutas e conquistas pelo direito à vida e à terra. Trigueiros e São Lourenço em destacado processo de identidade propõem a reflexão diária sobre a necessidade de direitos à cidadania. Em Olinda a gente tem o Terreiro do Povo de Xambá, único no país e que Pai Ivo de Xambá lidera com muito compromisso e respeito aos orixás. E temos o terreiro sítio de Pai Adão, o Ilê Obá Ogunté, fundado em 1875. 

Os bois de Aliança, de Timbaúba, também celebram a história afro-brasileira a partir de seus roteiros de história e viva história. Os patrimônios culturais afro-brasileiros ainda são silenciados, mas o combate à história única é um exercício diário de tensionar as políticas públicas e dos recursos para a cultura e isso não se faz sozinho. 

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