Na terra de Marinês, as mulheres sempre destacaram seus papeis e definiram suas rotas no mundo do trabalho e na vida social do Brejo vicentino. A cidade que um dia se fez economicamente com o café teve mãos femininas na colheita dos grãos, no transporte do produto e no beneficiamento quando chegava na fábrica. Esse deslocamento das mulheres no campo da agricultura rompe diretamente com o discurso de uma história única que elas não trabalhavam. Quando damos um zoom na história dessas pessoas entendemos a origem dessa mentalidade que proibia a mulher trabalhar mas que majoritariamente eram outras mulheres que garantiam o funcionamento da casa e dos partidos de café, de cana e de algodão, outro produto cultivado nas terras de São Vicente Férrer.
Os plantios de Café foram declinando e o ciclo cafeeiro foi sendo substituído pelo crescente investimento na Banana. As mulheres e homens que trabalhavam no eito para garantir o sustento, e principalmente elas que dividiam o campo com a casa e seus papeis em casa e na família, movimentaram e protagonizaram essa transição. A nossa história, marcada por canetas masculinas contornou pouco o protagonismo feminino na cena social vicentina. Os registros poucos de mulheres desenvolvendo atividades criativas no campo da cultura local dá conta apenas desse espaço ser predominante no campo da fé e das festividades populares com as cirandas, os cocos, os catimbós e com pouco destaque no século XX, nas artes plásticas.
Marinês é um exemplo desse despontar tardio para São Vicente enquanto o país inteiro cantava “pisa na fulô” projetando de “Marinês e sua Gente” na cena musical do país, colocando-a como rainha do Xaxado. Nascida na Chã do Esquecido somente nos anos 2010 que políticas culturais do município de São Vicente mediadas pelo então Secretário de Cultura o Professor Kléber Henrique que surgiu essa biografia marcada por luta e história que conta história nas suas músicas. Marinês recebe todos que chegam a cidade como uma estátua marcada pela luta incansável do seu povo por direito a cultura.
Outra trama que sai do anonimato graças a luta de mulheres em coletivo é a cooperativa que transforma o produto descartado após a colheita da Banana para criar peças a partir da fibra da bananeira, colhida, beneficiada e transformada em arte pela Fio e Renda, uma cooperativa instalada na Rua João Pessoa, dirigido por Fátima, uma artesã que movimenta a cidade com sua liderança inspiradora e comprometida com a justiça social e equidade de direitos. No Fio e Renda elas aprendem não só a tratar a fibra da bananeira mas criar condições reais de emancipação e tomada de suas vidas. Oficinas, cineclubes, exposições, orientações profissionais e aperfeiçoamento do seu artesanato marcam a história do núcleo de mulheres em São Vicente. Recentemente elas criaram um desfile de moda com peças criadas no ateliê da cooperativa, além disso o bordado e a tinturaria orgânica desponta como inovação nesse segmento têxtil sustentável.
Dona Socorro, outra mulher de fibra que iniciou trabalhos com trançados na palha da banana na Vila Siriji, o distrito de São Vicente transformou e lutou e continua a sua jornada criando peças de decoração. Ela foi pioneira no artesanato da bananeira atuando como mediadora e coordenadora nos anos 2000 a frente de projetos sociais com foco no empoderamento da mulher vicentina. Outras mulheres fazem e fizeram história como dona Isabel Albuquerque, artista plástica. Dona Conceição Luna e Eutícia. Lutar como uma mulher, deveria ser a máxima de todos nós que buscamos e lutamos pela equidade de gênero, social e racial.


