Nossa história, Nossa memória

O Podcast é um projeto documental, que usa técnicas de linguagem radiofônica, internet e de jornalismo cultural, biográfico e literário, con na proteção, preservação, conservação e salvaguarda dos Patrimônios Culturais Materiais e Imateriais da região da Zona da Mata de Pernambuco, em suas diversas linguagens

A FUNÇÃO SOCIAL DO CANAL DO BALDO DO RIO EM GOIANA

Após a invasão portuguesa e a divisão das capitanias hereditárias a região do Goiana ficou limitada a capitania de Itamaracá, doada a Pero Lopes de Souza que foi um donatário pouco interessado no desenvolvimento local, escolheu outro quinhão para cuidar, mas sem muito sucesso, pois acabou morrendo num naufrágio. Ao longo da ocupação do território muitos indígenas da etnia Tabajara foram a povoação de Goiana passou a ser a cidade administrativa da capitania “esquecida”. 

A cidade é banhada por rios que são “civilizadores” pois se colocaram como roteiros de adentramento dos territórios em formação como o caudaloso Goiana. Ele é formado pelo rio Tracunhaém, o Capibaribe Mirim, o Rio Siriji. No recorte social dessas cidades entrecortadas por rios os usos da água para moer, transportar e suprir necessidades vitais, mas viraram também sinônimo de modernidade quando buscaram alternativas para driblar as dificuldades locais. 

A cidade parece sair do rio, se construindo a partir das vivências dos ribeirinhos e ganhando outras estruturas marcada pela vida portuária e das vivências religiosas presentes nas irmandades dos pretos, dos pardos e dos brancos. No século XIX houve o advento das ferrovias ganhando espaço nas vilas e cidades que eram núcleos econômicos pujantes. O ramal de Aliança poderia desenvolver o tronco ferroviário para Goiana. Sendo o ponto mais próximo da localidade estudos foram realizados e um grande debate se travou na câmara provincial uma discussão focada na construção de um ramal para Goiana, inserindo-a na modernidade mas não era um consenso. Outra corrente política acreditava que estender a ferrovia não teria um impacto positivo nas transações econômicas. 

Para resolver esse impasse a cidade construiu um porto. Estava em voga no final do século XIX a construção de espaços mais modernos que canalizasse a cidade com saída para o mar ou aos rios. Muitas outras cidades dispunham de canais que integravam ao mar. Por isso, na altura do rio Tracunhaém que encontra-se com o Goiana, foi construído na zona portuária da cidade uma extensão conectando o rio ao bairro do centro histórico criando situação favorável para os moradores locais utilizarem os recursos do novo símbolo da modernidade para também utilizar como um entreposto. 

Ao longo do século XX o Baldo do Rio simbolizou o desenvolvimento local e cultural da cidade. A vida política e social estava concentrada nesse espaço tendo em vista a proximidade dos casarões importantes, geralmente importantes comerciantes que usavam o porto de Goiana e o baldo do rio era uma interiorização das políticas econômicas vigente nos tempos dos engenhos. 

Atualmente o espaço é frequentemente impactado pelas enchentes que tem sido constante por uma questão de ausência de planejamento urbano. Mas é de se colocar também estratégias para salvaguardar as memórias do trabalho que existem naquele lugar. O Baldo é portanto um lugar que vem sendo explorado e mencionado em estudos com vistas para a salvaguarda do patrimônio histórico e dos saberes locais como o caso das pretinhas do congo. É pelo canal que a procissão de São Pedro, padroeiro da cidade que entra e encontra seus fiéis, um devoção histórica no baldo do rio. Nas proximidades também é lugar de vivência das Pretinhas do Congo, um quilombo urbano marcado pela tradição carnavalesca que acende a importância da memória do povo afrodiaspórico. Essa comunidade e o canal do Rio Goiana estabeleceram uma estreita relação com o patrimônio ambiental cuja importância de mapeamento e salvaguarda são urgentes e inadiáveis.

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