O Maracatu é uma dança, é um ritmo, é um elemento importante do imaginário social da zona da mata e também é parte indissociável da cultura pernambucana. Nazaré é a Capital Estadual do Maracatu que celebra essa expressão o ano inteiro nos barrações em que se desenha, pinta, borda e sopra vida durante e após o carnaval, porque o maracatu é o elemento da identidade da população da mata norte. A palavra tem ritmo e posicionamento, TU – MARACÁ, e assim enreda-se cores em simbolos e formas geométricas acompanhado por surrões com chocalhos anunciando séculos de ancestralidade debaixo de cabeleiras coloridas que celebram os voduns e os orixás vindos de África e resistindo ao tempo e a impiedosa especulação da cultura pelo capital. Baque solto, é o que nos projeta. O som aligeirado num cortejo que parece apenas performance para quem vê ganha sentido quando enxergamos as histórias de vida de cada um. Famílias inteiras saem em desfile mostrando sua herança cultural.
No passado as mulheres não podiam participar. As damas que vemos hoje eram vivenciadas pelos homens que se vestiam de baianas e iam para o cortejo. Para ser mais direto, o maracatu como enxergamos hoje é fruto de adaptações e acréscimos para harmonizar os contextos do folguedo popular. Tudo era feito pelos rapazes, por uma questão da mentalidade medieval em que mulheres poderiam colocar o trabalho a perder eram eles mesmo que bordavam, pintavam, preparavam todo o cenário para brilharem nas avenidas. Ainda temos homens fazendo esse trabalho do bordado, na Chã dos Camarás ainda é possível ver esse trabalho, mas mulheres tem assumido esse protagonismo.
Nazaré também tem uma associação, a Associação de Mulheres de Nazaré da Mata. Essa associação transforma as vidas das mulheres no projeto de equidade social. A tem um maracatu formado só por mulheres. É o que a Bell Hooks fala sobre transgredir. Transgredir aqui é contrariar a lógica do opressor e criar um dispositivo de emancipação. O Maracatu de Baque Solto Coração Nazareno inspirou outros maracatus femininos na região. 72 mulheres engajadas na construção de outra possibilidade de resistência na terra dos maracatus. A AMUNAN tem atuação na zona da Mata, no litoral e ações coordenadas em cidades do Sertão também. Essa projeção mobiliza diversas outras representantes para construir pontos de luta e representação. Maracatu e poesia, porque elas também entoam as Loas, que são as poesias criadas de maneira espontânea que requer posicionamento, agilidade e muita competência cognitiva para criar os versos e puxar os movimentos.
A exemplo do Coração Nazareno é muito interessante acompanhar como nas escolas esses empoderamentos que visam enquadrar novas exposições na cena cultura puxa os protagonismos femininos. O Maracatu Flor da Jaci, liderado pela Mestra Cristiane, de Vicência, se consolida como uma estratégia pedagógica para promover outras histórias a luz dos movimentos que estão presentes no chão da escola e não se percebe com tanta agilidade quando se precisa. Isso porque se o Maracatu é um foco da resistência preta no nosso Estado, é resistência também nos espaços públicos. A AMUNAN puxa de um lado e as meninas que protagonizam a história cultural inspiram outras mulheres. São muitas pessoas que povoam o imaginário desse movimento cheio de conexões com o passado e representação social mas que são necessárias muitas outras para não deixar virar ciclo o sonho do oprimido em ser opressor, mas libertar as pessoas dos ciclo de violência doméstica, da violência financeira e psicológica.


