De que serve uma cidade se a memória dela está sendo esquecida e apagada por camadas e camadas de narrativas que esvaziam os sentidos das coisas? De que vale uma cidade, um estado ou um país que despreza as memórias dos velhos e das velhas? Qual relevância tem uma nação cuja pauta cultura não consegue alcançar as novas gerações, tudo parece ter chegado ao fim e não tem como prosseguir na discussão sobre identidade, memória e vida comunitária? As respostas para tantas questões encontram um tema forte: educação.
Ao longo do tempo as sociedades que estavam sendo apagadas entenderam que a forma de permanecerem vivas era preservando o que elas tinham de mais preciosa, sua história. É nesse contexto de preocupação com o que ainda resta dos testemunhos do passado que fomos vendo, por exemplo, o Brasil, buscando formular leis que protegem a cultura material. Ações de salvaguarda dos bens edificados foram emoldurando um panorama importante de monumentos que se olhado mais de perto poderíamos traçar um perfil de qual país teríamos para chamar de nação e imprimisse para essa nação um sentimento de coletividade.
Evidente que ações focadas nos bens materiais seria acolhido por um grupo de pensadores específicos que no nosso caso foram os arquitetos da década de 30. Isso só para dar uma ideia da dimensão e da diversidade de temas que podem sair de uma discussão focada no patrimônio cultural. Quando nos aproximamos mais ainda dos casos de tombamento, registros e outras ferramentas para preservar a cultura, enxergamos que estamos falhando com a cultura imaterial que estão nas periferias, ou nas tidas periferias. Porque a cultura não deve ser apenas promotora ou promovida pela elite econômica desse país, mas colocando o povo no centro do debate. E a estratégia para isso acontecer é envolver estudante, professores e comunidade.
A Escola é um espaço de negociações e conflitos, mas é dela também a função de despertar a criticidade nos estudantes para questões do cotidiano. A preservação da memória também passa pela escola, pois a educação para o patrimônio se revela como uma ação cidadã, um direito humano nos dias de hoje é uma pauta inadiável.
Para construir uma boa prática para a educação patrimonial crítica é necessário observar o que o IPHAN já consolidou como metodologia das ações no segmento da memória e história. Primeira etapa a observação do que pretende-se lançar luz onde as pessoas vivem e interagem. Neste momento da ação é de suma importância haver orientação clara sobre o que se pretende nas etapas posteriores, mas é importante criar uma ideia de estranhamento. Estranhar o lugar para poder enxergar as minúcias. A segunda etapa da atividade reside na apropriação das percepções do espaço, dos lugares estudados utilizando imagens, fotografias e desenhos. É momento de tentar se apropriar do máximo que puder para a proposta. A terceira etapa da ação é a exploração do lugar, ou seja, promover análise crítica sobre costumes, saberes, fazeres. Os professores, produtores culturais ou quaisquer mediadores orientam os participantes da educação patrimonial a olhar de novo o que já está viciado ao nosso olhar. Daí o resultado esperado é um conhecimento novo sobre o objeto estudado e analisado. A quarta etapa dos estudos é resultado de todo o esforço para a criação de uma sensibilização do patrimônio para inserir as pessoas no cenário da história, fazê-lo pertencer ao lugar e mobilizá-lo, mobilizá-la para estabelecer metodologias cotidianas. Essas etapas podem ser feitas a partir de passeios nos centros e nas periferias das cidades; mapa afetivo dos lugares, jogos de memória, jogos que mobilizam participantes para construir a criticidade. Evidentemente que as atividades podem ampliar conflitos, potencializar a percepção dos lugares e possibilidade das cidades trazendo à baila a importância, na prática, da história das cidades, das ruas, dos lugares, dos saberes e fazeres. A educação para o patrimônio segue sendo uma alternativa a descoberta da cidade e das pessoas.


