Nossa história, Nossa memória

O Podcast é um projeto documental, que usa técnicas de linguagem radiofônica, internet e de jornalismo cultural, biográfico e literário, con na proteção, preservação, conservação e salvaguarda dos Patrimônios Culturais Materiais e Imateriais da região da Zona da Mata de Pernambuco, em suas diversas linguagens

DEVOÇÃO DE NEGRO – AS IRMANDADES RELIGIOSAS NA MATA NORTE

A maior referência das devoções negras da mata norte encontram-se na sua maioria na cidade de goiana com as irmandades construídas no século XVIII e que perdura até os dias de hoje. A formação das sociedades pretas da nossa região marcada pelo trabalho forçado levado ao limite da resistência desses corpos devem-se sobretudo de práticas religiosas e as fugas simbólicas do trabalho. 

Quando desembarcaram nos portos em Goiana e em Tamandaré aqui em Pernambuco os escravizados eram obrigados a trocar de nome, esquecer suas devoções e aprender o idioma da terra. A chegada em navios tumbeiros carregados de humanos em putrefação e situações críticas de saúde também era a chegada desses credos que foram forçados ao esquecimento. É interessante destacar que em cada propriedade um padroeiro era interpretado pelas percepções dos escravizados associando-os aos santos de devoção em África. 

As relações associativas por aqui se deram de forma sistemática porque no continente africano as campanhas europeias já haviam adentrado os interiores e promovido catequese convertendo os tidos pagãos aos santos de devoção brancos. Nesse contexto, os orixás e voduns passaram a ter simbolicamente uma identidade relacionada às novas práticas de fé para garantir a preservação da vida. Em Goiana, por exemplo, já no século XVII os negros escravizados organizaram-se para construir uma igreja com devoção a Nossa Senhora do Rosário. Evidentemente que ao longo do tempo ela foi ganhando elementos no seu frontão influenciado pelo Barroco. Na página sobre história regional “A Terra de Santa Cruz” inscreveu que nos documentos do Convento de Santo Alberto há um registro atestando a existência de uma capelinha no mesmo lugar. 

A Igreja do Rosário dos Pretos era um ponto de integração cultural também. Onde as agremiações populares reuniam-se para suas vivências sociais. Havia as celebrações do Rosário mas outras festividades também concorriam ao contexto devocional de São Benedito. As irmandades também exerciam a função de mobilidade social que poderia ser pela via militar – por meio do terço dos henriques – e pela via religiosa pela organização das irmandades.

Mas nem só no litoral ou próximo dele registravam-se essas manifestações. Em Angélica, Vicência, a capela de Nossa Senhora do Rosário é o resultado dessas interações servis do período da escravidão. Em Nazaré da Mata, Dom Ricardo Vilela, o primeiro bispo da diocese, um homem preto, era adepto dos movimentos sincréticos. As congadas na frente da Igreja de Nazaré e dos engenhos eram pontos de culto e reafirmação das identidades locais. Em Tamataúpe de Flores, em Poço Comprido, em Passassunga as representações religiosas compreendem a fé sincretizada dos pretos. 

Não esquecer que há em Goiana ainda  Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Pardos e Cativos. Essas experiências com a fé denotam uma segregação da fé e da sociabilidade das pessoas que viveram e vivem na Mata Norte. 

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