No cenário da cultura brasileira o Mamulengo ocupa lugar em destaque por suas representações e simbologia do povo e suas tradições. Em 2015 o IPHAN reconheceu essa manifestação como um patrimônio cultural imaterial e ao reconhecê-lo as pessoas que praticam essa área ganham passaram em larga medida a existir. Na cultura popular que é visto como cultura marginalizada atribui-se silenciamentos que afastavam políticas públicas de salvaguarda e identidades.
Assim como aconteceu nos outros folguedos, o Mamulengo sofreu alterações nas suas formas de representação. Mané Gulino, no distrito de Siriji e adjacências, tinha diversos tipos de bonecos que eram apresentados nos toldos em madeira. Ele juntamente com outros colegas ocupavam sempre o começo das festividades populares como a de São José do Siriji na rua Galdiano Sérgio Barbosa. Quando Mané Gulino chegava agregavam para ver as cenas cotidianas dramatizados denunciando as violências sociais. É certo que o estilo dos brinquedos presentes nos estados de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte reproduziam e banalizavam as questões sociais do contexto da vida cotidiana. Então o que se via nesses mamulengos? Brigas entre mulheres e homens, traições conjugais que eram discutidas. A catirina estava frequentemente grávida enquando o Mateus fazia as mugangas.
O mamulengo do século XX representa atitudes autoritários em regiões marcadas pelos senhores de engenho e dos coronéis atrelados à polícia local. A agressão física era visto como divertimento, uma forma de representação da vida real. Engraçado mas sem criticidade. Era assim com Mané Gulino, todos riam e se divertiam com as realidades amargas em cada casa. No século XXI as demandas artísticas numa ideia de promover uma cidadania tem mudado a rota do enredo apresentado ao público uma vez que as crianças tem se aproximado dessa expressão.
Assim como Mané Gulino todos os mamulengueiros, brincantes ou presepeiros partiam de um lugar comum que a sociedade era relacionada. Agora, com novos tratados sociais essas brincadeiras passaram a ser saneadas e que é diagnosticado como violência deve ser evitado nas apresentações pela dimensão pedagógica que essas atividades tem. Os temas mudaram, se no passado havia apologias a violência, hoje a narrativa combate o feminicídio, a homofobia e investem em temas que fortaleçam a cidadania.
Existem vários tipos de Mamulengo: O mamulengo de luva, que é o mais tradicional e tem como característica a túnica para colocar a mão e dar vida ao boneco. Sua cabeça e sua é esculpida de madeira e a criatividade toma conta do processo de animar esse teatro. Tem o mamulengo de luva e fio; mamulengo de vareta, vareta e fio, que são as estratégias de representação comum no teatro de bonecos.
Hermilo Borba Filho tem um pensamento sobre o mamulengo que sintetiza toda a magia e a grandiosidade que são as características extraordinária, “ a matéria do homem junta-se à matéria do boneco para uma transfiguração. A alma do homem dá ao boneco também uma alma. E, nesta pureza realizam um ato poético”.
Celebramos as vertentes dessa expressão artística nordestina, pernambucana que agora é também nacional, mas que é tão nossa. O mamulengo deve ser celebrado e discutido como elemento da nossa formação como povo e conectar-se aos espaços como o Museu do Mamulengo em Glória do Goitá que mantém viva a tradição dos bonecos falantes e que ganham vida a partir da imaginação de um artista nosso e próximo de nós.


