Nossa história, Nossa memória

O Podcast é um projeto documental, que usa técnicas de linguagem radiofônica, internet e de jornalismo cultural, biográfico e literário, con na proteção, preservação, conservação e salvaguarda dos Patrimônios Culturais Materiais e Imateriais da região da Zona da Mata de Pernambuco, em suas diversas linguagens

Roteiro episódio 5

Da infância encantada ao Museu do Mamulengo: a história de Mestra Titinha

Artesã, bonequeira e brincante, ela rompeu barreiras no teatro de bonecos, fundou um grupo só de mulheres e hoje é referência na preservação do patrimônio cultural em Glória do Goitá

Aos nove anos de idade, Edijane Maria Ferreira de Lima ficou encantada com a boneca Quitéria, apresentada em uma barraca de mamulengo durante a festa da padroeira de sua cidade natal, Glória do Goitá. O que parecia apenas um espetáculo infantil tornou-se a inspiração de uma vida inteira. Conhecida como Mestra Titinha do Mamulengo, ela é hoje artesã, bonequeira e brincante, com mais de duas décadas dedicadas à preservação e reinvenção dessa tradição popular.

Aprendeu a esculpir com o sogro, Mestre Zé Lopes, e a manipular bonecos com os mestres Zé Divina e Bila. Enfrentou o machismo dentro de uma manifestação cultural marcada pela presença masculina e fundou, em 2020, o Mamulengo Flor do Mulungu, primeiro grupo formado apenas por mulheres na região. Atualmente, Titinha também dirige o Museu do Mamulengo de Glória do Goitá, espaço que salvaguarda memórias e forma novas gerações de brincantes.

Mais do que dar vida aos bonecos, Mestra Titinha transformou sua própria história em símbolo de resistência, pedagogia cultural e inspiração para mulheres que desejam ocupar o palco da tradição popular.

Acompanhe, abaixo, a íntegra da entrevista. Além de ouvir e assistir ao episódio, você também pode ler a conversa completa.

Apresentadora Josi Marinho: 

Olá! Esse é o Nossa História, Nossa Memória, que traz uma temporada especial sobre as mulheres na cultura. Um projeto incentivado pela Fundarte, Funcultura e pelo Governo do Estado de Pernambuco. 

O nosso podcast escuta o tempo, as pessoas e os territórios. E nessa temporada entramos nos espaços onde a cultura é vivida, criada e reinventada todos os dias por mulheres incríveis. 

Eu sou Josi Marinho, jornalista, produtora cultural, moro na cidade de Carpina e há 10 anos trabalho contando histórias do nosso povo, seja no rádio, na escrita e agora no nosso podcast. 

Afinal, eu acredito que preservar a memória é também cuidar do nosso futuro. Hoje, a gente chega ao município de Glória do Goitá, na Zona da Mata de Pernambuco, para conhecer a história de uma mulher que dá vida aos bonecos e alma ao mamulengo, a Mestra Titinha. 

Edijane Maria Ferreira de Lima, ou simplesmente Mestra Titinha do Mamulengo, é artesã, bonequeira e brincante. Seu primeiro contato com a arte do mamulengo foi no ano 2000, através de um projeto cultural em sua cidade. 

Começou fazendo os bonecos e logo descobriu que o seu caminho era muito maior. Com o sogro, mestre Zé Lopes, aprendeu a esculpir. 

Com os mestres Zé Divina e Bila, aprendeu a montar os cenários, criar histórias e manipular os personagens. Mas se apresentar, isso parecia difícil, não por falta de talento, mas por ser mulher numa tradição marcada apenas por homens. Só que Titinha não recuou. 

Em 2020, ela criou o grupo Mamulengo Flor do Mulungu, formado só por mulheres. E juntas, elas abriram um espaço, rompendo o silêncio e mostrando que mulher pode e deve estar onde quiser, inclusive no palco, com boneco na mão e muita história para contar. 

Atualmente, é responsável pela gestão do Museu do Mamulengo de Glória do Goitá. Mestra Titinha é referência viva da cultura popular e inspiração para outras mulheres brincantes. E é com ela que a gente conversa agora. 

Mestra Titinha, que alegria recebê-la aqui no nosso podcast Nossa História, Nossa Memória.

Entrevistada Mestra Titinha: Josi, para mim é uma alegria, né? A gente participou do seu outro podcast, que já valorizou muito o nosso trabalho, principalmente do Mamulengo Flor do Mulungu, e a história dessas mulheres que estão aqui desde 2000, como bonequeiras e hoje como mamulengueiras, músicas e componentes para o Flor do Mulungu. Para a gente é uma honra receber você aqui.

Apresentadora Josi Marinho: Para você que está nos acompanhando, a Mestra Titinha foi nossa convidada em outra temporada do Nossa História, Nossa Memória. Inclusive você também pode acompanhar nas nossas redes sociais e nos canais do podcast. Mas, Mestra Titinha, estamos aqui em Glória do Goitá, num espaço incrível que é o Museu do Mamulengo. Então, inicialmente, eu gostaria que a senhora pudesse apresentar melhor para nossos ouvintes que espaço é esse e o que ele traz de tão encantador para a cultura popular.

Entrevistada Mestra Titinha: A gente está aqui no Museu do Mamulengo. O Museu do Mamulengo é a sede da Associação Cultural dos Mamulengueiros. A associação surgiu em 2003, legalmente, mas a gente inicia em 2002, em 2000, através da oficina, esse processo da salvaguarda dessa tradição, já naquela época. A associação é o celeiro dessa cultura popular, onde tem mestres e mestras. A nova geração de brincantes está sendo formada aqui. Hoje temos cinco grupos ativos de mamulengo, um infantil, um de mamulengo e três de homens, de mestres que hoje consagram a cultura popular em Glória do Goitá. De 2000 a 2021, tivemos uma perda gigantesca, com vários mestres que se foram, como Zé Lopes, Zé Divina e Luiz Preto. Infelizmente também tivemos na sua cidade a perda de Mestre Saúba. Então, com essa salvaguarda que a associação faz, com essa transmissão de saber, aqui é o celeiro da cultura popular.

Apresentadora Josi Marinho: Gostaria de saber, Mestra Titinha, como foi seu primeiro contato com o mamulengo? Quando foi que a senhora ouviu o boneco conversar com a senhora?

Entrevistada Mestra Titinha: Meu primeiro contato foi aos nove anos, numa festa da padroeira de Glória do Goitá. O mestre Zé Lopes apresentou a boneca Quitéria mais cedo, e quando vi aquela boneca dançando, com cabelos longos, relógio, brinco e vestido de cetim, fiquei encantada. Eu achava que era uma mulher de verdade. Mas como era menina, não podia acompanhar, enquanto meu irmão podia. Isso me marcou profundamente.

Apresentadora Josi Marinho: E como essa barreira influenciou sua trajetória?

Entrevistada Mestra Titinha: Eu sempre me perguntava por que eu não podia. Em 2000, entrei no projeto Mamulengo Boneco Brasileiro, aprendi a fazer bonecos, mas percebi que só conseguia criar personagens femininos. Em 2007, numa oficina do mestre Zé Divina, entendi como as mulheres eram tratadas dentro da brincadeira, muitas vezes como objeto, e vi a necessidade de mudar.

Apresentadora Josi Marinho: E como veio essa mudança?

Entrevistada Mestra Titinha: Em 2008, fundamos o grupo Mamulengo Nova Geração. Foi um momento importante, mas ainda sofremos muito preconceito. As críticas eram duras, diziam que mamulengo com mulher não prestava. Mas resistimos. Aos poucos, fomos conquistando espaço e mudando a forma de brincar, tirando o peso do machismo e trazendo novos temas.

Apresentadora Josi Marinho: E em 2020 nasce o Mamulengo Flor do Mulungu, só de mulheres.

Entrevistada Mestra Titinha: Isso mesmo. Eu sentia que precisava brincar do meu jeito. No Flor do Mulungu, a Catirina não aparece mais com uma criança branca no colo, mas como uma mulher empoderada, que faz faculdade, divide as tarefas com o marido e luta pelos seus sonhos. É uma forma de mostrar que a cultura também pode evoluir.

Apresentadora Josi Marinho: E como foi trazer sua filha Jennifer para a brincadeira?

Entrevistada Mestra Titinha: Foi emocionante. Jennifer cresceu no museu, aprendeu com a gente e hoje é contramestra no Flor do Mulungu. Ela já produz bonecos e assumiu a presidência da Associação Cultural dos Mamulengueiros, a mais jovem a ocupar esse cargo. É uma continuidade do nosso legado.

Apresentadora Josi Marinho: O mamulengo é patrimônio cultural do Brasil. Qual a importância desse espaço e dessa tradição para você?

Entrevistada Mestra Titinha: Para mim, é um orgulho. O museu é um celeiro da cultura popular, onde formamos novas gerações. As oficinas oferecem renda e empoderamento para mulheres. Eu acredito que nosso lugar é à frente da cultura popular, não mais nos bastidores.

Apresentadora Josi Marinho: Em mais de 20 anos de trajetória, houve momentos de dificuldade em que pensou em desistir?

Entrevistada Mestra Titinha: Sim. Em 2017, quando enfrentamos perseguição e tentaram tirar a associação do espaço. Pensei em desistir, mas vi que muitas pessoas dependiam do meu trabalho. Foi difícil, mas resisti. E essa resistência me fortaleceu ainda mais.

Apresentadora Josi Marinho: E o apoio da família, como você vê hoje?

Entrevistada Mestra Titinha: Para mim é orgulho. Ver meus filhos e meu esposo envolvidos mostra que cumprimos nosso papel. Se um dia eu partir, sei que eles vão continuar.

Apresentadora Josi Marinho: Houve algum momento em que você sentiu que todo o esforço valeu a pena?

Entrevistada Mestra Titinha: Sim. Quando vejo alunos das oficinas mudando de vida, mulheres que enfrentavam violência e encontraram força no mamulengo, jovens que criaram seus próprios grupos. Esse retorno é o que mais me emociona.

Apresentadora Josi Marinho: Para encerrar, o que o mamulengo representa para você?

Entrevistada Mestra Titinha: O mamulengo é minha vida. É meu trabalho, minha renda, minha terapia. Quando produzo ou brinco, esqueço os problemas. Conquistei minha casa e muito do que tenho através dessa arte. Para mim, o mamulengo é tudo.

Apresentadora Josi Marinho: O Museu do Mamulengo também é aberto ao público. Como as pessoas podem conhecer esse espaço?

Entrevistada Mestra Titinha: O museu funciona de terça a sábado, das 9h às 11h30 e das 13h30 às 17h, e aos domingos, das 14h às 17h. Quem vier vai encontrar mestres produzindo, oficinas e apresentações do Flor do Mulungu. É um espaço vivo, de preservação e transmissão da cultura popular.

Apresentadora Josi Marinho: Mestra Titinha faz dos pedaços de madeira e do pano um bordado de resistência. Com coragem, reinventou a tradição e abriu espaço para outras vozes de mulheres no mundo do mamulengo. E provou que brincar, quando é com verdade, vira ato de memória e liberdade. Mestra, para a gente encerrar, o que é a cultura popular para você em uma palavra?

Entrevistada Mestra Titinha: Resistência.

Apresentadora Josi Marinho: Mestra Titinha, nossa gratidão por sua participação aqui em mais um episódio do Nossa História, Nossa Memória. E você que está nos acompanhando, esse é o podcast Nossa História, Nossa Memória, com a temporada muito especial Mulheres na Cultura, uma produção que escuta as mulheres que fazem a cultura acontecer.

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