A capela construída por Joaquim Belém no limiar do século XIX recebeu o nome do proprietário reforçado uma tradição comum nos engenhos de açúcar: os senhores de engenhos procuravam associar seus nomes com o dos padroeiros e investir em imagens ricamente ornadas com roupas volumosas e até o uso de botas que pode ser lido como autoimagem, seria o senhor de engenho santificado, de roupas sofisticadas e uma bota. Na semiótica do patrimônio em Minas a bota estaria ligado ao bandeirante que invadiam territórios indígenas em Laranjeiras havia o São Joaquim de Botas uma conexão direta com seu proprietário. Algo semelhante acontece com a capela de Santa Ana, que teve doação de 40 braças de terra por Vicência Barbosa de Mello para o povo da velha freguesia. Tanto Joaquim quanto Ana figuram no imaginário coletivo mais recente que as festas deles deveriam acontecer ao mesmo tempo. A imagem da padroeira de Vicência vestida de Chita verde com elementos florais, uma representação da época para a valorização de tecidos orientais. Na composição da imagem, basta olhar para Maria no braço de Santa Ana o uso do sapato. Sapatos nos pés de Maria e brincos nas orelhas de Santa Ana denotam nobreza e enriquecimento da padroeira. A devoção a mulheres no contexto colonial reforça o protagonismo feminino na administração dos banguês.
Essas representações religiosas, encomendadas em Portugal ou na Espanha e chegadas nos interiores da província de Pernambuco despertavam além da devoção dos seus senhores uma estratégia de unidade entre os moradore e engenhos, pois com as festas promovidas pelos proprietários as outras propriedades deslocavam-se para a veneração dessas santas. Inclusive o melhoramento das pequenas capelas devem-se a essa projeção dos enredos festivos. As padroeiras entronizadas nessas capelas viraram donas das cidades e gerindo os territórios como fossem pessoas vivas. Na povoação de Vicência, por exemplo, as braças doadas a santa estão de papel passado a divindade cabendo a ela fazer o que quiser da propriedade. Esse comportamento repete-se em Bom Jardim, que também tem terras e faz dela o que quiser. Joaquim também é herdeiro das terras do Joaquim Belém.
As capelas dessas divindades também misturavam padrões que repetiam-se em dado momento do século XIX: muitas volutas, frontões altos, fórnices amplas e sinos encomendados para anunciar festas, batizados e outros costumes desenvolvidos num tempo que as horas eram marcados pelo badalado das capelas das freguesias. Nesse contexto as procissões também eram marcadas e a cada período do ano as festas reuniam, como já dito, os outros moradores numa celebração que ultrapassava o divino e muitas vezes ganhava ares políticos. A devoção aos avós de Jesus também uniu as duas freguesias, a de Laranjeiras e a de Vicência. A primeira havia sido suprimida pela da Conceição da Lagoa das Antas em 1839 e a segunda estabelecida pelo criação da província em 1879.
Ainda sem registro como patrimônio essas devoções quase sesquicentenárias resistem nas ruas de Vicência em julho. Andores ornados sustentados por homens ligados a política seguem em procissão para suas capelas como se reafirmasse o poder e o posicionamento ainda dos velhos donários. As festas assumem também o caráter de agregar os fiéis que geralmente vem atrás dos andores pagando suas promessas e suas penitências. A devoção dúlia de Joaquim e Ana revelam comportamentos e costumes que vão se perdendo com a contemporaneidade: os doces, as prendas, as quermesses e outras características das festas populares que reuniam o povo no adro das igrejas e que se quer mapeada antes que desapareça.


