Em todas as cidades do Brasil tem um monumento que conta a história social, política e cultural do lugar, mas por conta do afastamento da população da sua própria história, esses monumentos são ocupados apenas como lugares de encontro ou referências esvaziadas nos centros dessas localidades.
O exercício de enxergar esses monumentos como chaves de leitura sobre a história local pode ser um esforço feito pelas instituições de ensino como escolas e universidades. Existem estratégias muito interessantes como a educação para o patrimônio que aproxima a população a essas temáticas.
Adianto que a educação patrimonial pode ser um caminho para o fortalecimento da cidadania quando essas instâncias contribuem de forma crítica na concepção do conceito e trabalho engajado.
Pelo viés da memória é possível o fortalecimento das parcerias e coletividade atrelando a educação do olhar para os bens espalhados em todos os lugares dos vilarejos, povoações e grandes urbes do nosso país, da nossa região e da nossa localidade.
Na Mata Norte todas os municípios têm um ou outro bem que elege para significar toda a história local, o que pode ser mais sugestivo se ampliamos esses bens para incluir outros que consigam atingir mais de um grupo social promovendo a pertencimento e conseguintemente engajamento por conta das conexões que esses pontos eleitos podem despertar.
Olhar para outros lugares trazendo as manifestações, fazeres, epistemes e costumes da mesma localidade, digo, enxergar a multiplicidade num mesmo recorte territorial, pelo patrimônio é uma forma de construir políticas que combatam esquecimentos e fortaleçam a memória enquanto uma política pública.
É nessa mesma região que algumas instituições atuaram na preservação dos saberes e fazeres de mestres e mestras da cultura popular como a Biblioteca Comunitária Mestre Batista ligada ao Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança com coordenação pedagógica de Wanessa Santos, mulher negra e produtora cultural.
A Biblioteca foi instalada em 2006 e sua missão foi formar leitores na zona da mata canavieira. Aquele espaço foi importante pela sua atuação na ampliação dos horizontes dos moradores locais e pela orientação dada ao olhar.
A biblioteca foi instalada num anexo de um casarão colonial datado de 1930 e que na expectativa do que é patrimônio visto pelo olhar oficial jamais entraria na categoria. Então é sobre esse alargamento do entendimento do olhar e ver que a discussão sobre o patrimônio pode dar conta.
Como a Biblioteca Comunitária diversas iniciativas de fomento às culturas populares resultaram na valorização dos bens onde essas ações aconteceriam.
Outro exemplo desse processo de salvaguarda e de memória social e coletiva a Associação dos Filhos e Amigos de Vicência que hoje atua como Organização da Sociedade Civil acolhendo o Comitê de Cultura de Pernambuco.
A AFAV promove ações de salvaguarda e formação na área do patrimônio desde sua fundação. É uma missão regimental, inclusive.
Em 25 anos de atuação a referida instituição promoveu encontros de cultura popular, realizou cursos de formação, mobilizou agremiações de cultura popular e protagoniza um evento afrorreferenciado, a Consciência Negra.
Contando tantas discussões sobre memória, patrimônio e direitos humanos a referida instituição por muito 20 anos recebeu um patrimônio tombado ao qual destinou recursos captados por meio de editais culturas e formou o Museu Poço Comprido, sob a gestão da AFAV entre 2003 – 2025.
Não basta apenas preservar o bem e as manifestações. É importante envolver os agentes na organicidade do pensamento, da pesquisa, da vivência desses lugares/saberes. Aloísio Magalhães, um designer pernambucano que chegou a ser o superintendente do IPHAN pensava que a cultura deve ser vivida na sua totalidade, o bem deve ser experimentado na sua proposta.
No Museu Poço Comprido, fruto das políticas de memória intermediada pela AFAV atendia bem a essa prerrogativa.
As diretrizes pedagógicas e administrativas sob a responsabilidade de Joana Darc Ribeiro sempre orientaram para um olhar e sentir o espaço não como ele era, a função dali não é a mesma, antes o engenho era um lugar de exclusão, a proposta da Associação era formatar um engenho que decoloniza o saber.
É regimental também, descolonizar as memórias para consolidar o direito à cultura, aos direitos à cidadania e fortalecer os direitos humanos.
As políticas de memória são um conjunto de intenções fomentadas pelo governo federal, estadual e ou municipal com objetivo de consolidar a memória da cidade e fortalecer o direito a história, ao patrimônio e a cidade. Sem o fortalecimento das políticas de memória muito possivelmente teremos sempre o desafio de lembrar a importância da preservação, da salvaguarda e sobretudo da Educação Patrimonial Crítica que se conecta com diversos saberes.
Acredito que o caminho para tecer uma discussão no seio dessas localidades é colocar o povo em contato com as legislações culturais que muitos ainda desconhecem. Um documento importante na escala proximal é a Lei Orgânica, nela o cidadão pode ler um artigo destinado a esse tema.
Lembre-se que as Leis municipais são respaldadas pela Constituição de 1988, especialmente o Artigo 215 que trata da cultura. Pensando nisso alguns municípios têm legislações de preservação e salvaguarda dos patrimônios tangíveis e intangíveis. Com a volta do Ministério da Cultura em 2023 criou-se uma estrutura de compartilhamento de ideias e saberes, como acontece no Programa Cultura Viva.
Os Comitês de Cultura são a instância mais próxima do povo e por isso passa a ser o meio de comunicação fácil com o Ministério da Cultura nos Estados da Federação.
Já no Estado de Pernambuco temos a FUNDARPE – Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado de Pernambuco – o Mapa Cultural funciona como um Inventário compartilhado de tudo que se produz na cadeia cultural onde a multiculturalidade é a marca desse repositório.
O Mapa Cultural é uma excelente ferramenta para acompanhar as propostas em execução, ideias de fortalecimento da cultura e dos direitos humanos no cenário estadual.
Por ele é possível acompanhar museus, agremiações, produções independentes, propostas de educação e divulgação de ações de salvaguarda da memória, da história, enfim do patrimônio cultural.


