Nossa história, Nossa memória

O Podcast é um projeto documental, que usa técnicas de linguagem radiofônica, internet e de jornalismo cultural, biográfico e literário, con na proteção, preservação, conservação e salvaguarda dos Patrimônios Culturais Materiais e Imateriais da região da Zona da Mata de Pernambuco, em suas diversas linguagens

Cafés finos para São Vicente: Uma breve história da Usina de Beneficiamento de Café

Entre os anos de 1860 e 1930 o Café brasileiro abasteceu o mercado interno e externo. A bebida mais cobiçada do Brasil era servida nas mesas norte-americanas e europeias, quase o mundo todo bebia do nosso café. Tanta especulação fez do país uma potência na exportação do produto indo parar simbolicamente nos brasões dos barões e no símbolo nacional durante o império e na república presentes até hoje.

Nos anos 20 a política de exportação do café sofreu um baque, em 1929 o mundo capitalista ruiu com a queda da bolsa de Nova Iorque e o nosso principal consumidor, os Estados Unidos adotaram políticas protecionistas. O resultado nesse período foi a correria para tentar equilibrar o preço e minimizar as perdas, internamente o valor despencou e foi necessário a queima de toneladas de sacas de café. 

Quando Vargas sequestrou a política nacional em 1930 por meio de um golpe a estratégia para minimizar a crise foi buscar novos mercados com a Itália, já internamente houve investimento refletido especialmente nos incentivos como a criação do Departamento Nacional do Café, 1933, em pleno governo provisório.

O Departamento Nacional do Café implantou Usinas de Beneficiamento em regiões produtoras em todo o território nacional. Uma das cidades contempladas com a política de expansão econômica do setor foi São Vicente que na época já tinha a produção cafeeira expressiva e aparecia na terceira posição na comercialização do produto.

Tão logo foi erguido um grande galpão, com repartições para a função da usina. A Usina tinha um pé direito alto, coberto com telhado afrancesado, duas portas principais e que entrou em funcionamento nos anos 30 celebrando a exitosa parceira entre o poder local, naquele momento sob a administração de Macapá (depois Macaparana) e o Instituto do Café. Tem uma fotografia aérea da região onde localizava-se o empreendimento. 

É certo que o registro teve outro objetivo, revelar o antigo engenho Gracioso da Serra, mas a reboque da foto está lá o oblongo espaço para a produção cafeeira e até nota-se no canto direito da imagem possíveis plantações de café. Por conta desse novo empreendimento no interior, o governo passa a viabilizar a construção de estradas ligando cidades próximas e inaugurando rodovias face a uma promessa ambiciosa de um ramal de trem para a terra do grão mais cobiçado naquele tempo. 

Esse feito pode ser visto entre vicência e Siriji, o governo do estado promoveu inaugurações de pontes reforçadas para escoamento do produto para as grandes cidades como Recife e seguindo o caminho oposto à chegada às cidades da Paraíba. Os cafés finos de São Vicente eram famosos. Evidentemente que a cidade floresceu e a fama da bebida ajudou, a modernização do beneficiamento impactou a teia comercial. 

Por conta desse bem muitas fazendas de café cresceram no Vale do Capibaribe-mirim e do Siriji, no centro do distrito, por exemplo, José Alves (proprietário do Engenho Nova Aliança) adquiriu uma máquina de despolpar o fruto inserindo-se no ramo do fornecimento de grãos já beneficiados. 

Claro que figuras importantes passaram a lucrar com o boom da produção, dentre eles Mané Café, de Serra Grande. 

Esse comerciante e agricultor chegou a possuir despolpador de café e de tão lucrativa suas safras ele comprava carros para ostentar sua riqueza. 

Mané Café era negro e numa sociedade marcada pelo preconceito sofreu discriminação por outros proprietários brancos e esse fato tensiona as questões raciais. 

Mané Café e ao lado o empreendimento do Estado para beneficiamento do café na vila de São Vicente – Macapá.

Após o período áureo do fruto em São Vicente, o Instituto Brasileiro do Café ainda foi reativado mas declinou tendo o prédio ido a leilão como atesta o jornal Diário de Pernambuco de 20 de janeiro de 1952. 

Adquirido e requalificado pelo poder municipal passou a funcionar como Mercado Público e por ocasião dos festejos alusivos à banana foi rebatizado como Banana Shopping. 

Toda a área do entorno, com a desapropriação do órgão federal foi loteada e hoje existe um bairro amplo, o nome do loteamento está intrinsecamente ligado à antiga usina: Loteamento IBC. 

Esse bem cultural marca o avanço técnico na localidade. Alude aos trabalhadores e trabalhadoras que marcaram o trabalho com aventais brancos e balaios para juntar o café que colhia das plantações. 

A comunidade ainda desconhece tanta memória em apenas um prédio o que sempre dificulta as relações de patrimônio e história locais.

Share

Search

Roteiros recentes

Compartilhe nas nossa redes